Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Ciclovia na Paulista é inaugurada com vaias a Haddad e festa

Prefeito foi hostilizado aos gritos de 'petrolão' e 'Sérgio Moro está chegando'; parte da via de 2,7 km amanheceu tingida de azul

Fabiana Cambricoli e Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

28 Junho 2015 | 12h19

Atualizado às 7h45 do dia 29/6

SÃO PAULO - Sob vaias de antipetistas e aplausos de ciclistas, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), inaugurou neste domingo, 28, a ciclovia da Avenida Paulista, na região central da cidade. A via, com 2,7 quilômetros de extensão em cada sentido, atraiu milhares de pessoas. A Paulista ficou fechada para carros das 10h às 17h10 e foi tomada não só por ciclistas, mas também por skatistas, famílias, idosos, músicos, food trucks e food bikes.

Haddad percorreu a via de bicicleta do Hospital Santa Catarina até a Praça do Ciclista, na Consolação, e foi alvo de manifestantes em diferentes pontos da avenida. Os protestos focaram nos desdobramentos da Operação Lava Jato e em críticas ao PT. Durante a cerimônia de inauguração, o prefeito deu entrevista sob vaias e gritos de um grupo que estava no pátio interno do Hospital Santa Catarina. As pessoas gritavam “petrolão!”, “Sérgio Moro está chegando”, “ciclovia para as pedaladas de Dilma” e “bandido”. 

Questionado, Haddad atribuiu as manifestações a opositores “infiltrados” no evento. “Sabiam que eu estaria aqui e tem certa ‘infiltraçãozinha’. Mas temos de respeitar, porque é uma manifestação democrática.”

O advogado Henrique Vilela de Souza, de 39 anos, foi um dos que gritaram contra o prefeito. Ele afirmou que passava pelo local “por acaso” e negou ser infiltrado ou filiado a partido político. O secretário municipal dos Transportes, Jilmar Tatto, comentou a situação: “Acho que os doentes estavam do lado de fora, não acham?”.

MBL. Um grupo de 15 pessoas do Movimento Brasil Livre (MBL) foi até a Paulista para protestar contra as “pedaladas fiscais” da presidente Dilma Rousseff. Em 13 bicicletas, os manifestantes planejavam fazer um passeio pela ciclovia, mas teriam sido impedidos por ciclistas. 

“Começamos a abrir nossas faixas e íamos pedalar, mas ficamos ilhados. Logo fomos hostilizados, e a Polícia Militar teve de fazer a nossa segurança. Pediram que nos retirassem”, contou o estudante de Direito e líder do MBL-SP, Caíque Mafra, de 21 anos. Na confusão, o jovem disse ter sido agredido com um tapa na cara.

Haddad convocou todos os partidos a integrarem o apoio às ciclovias. “Isso aqui não é uma política partidária, não é uma política de governo, é uma política que deveria ser abraçada por todos os partidos e por todos os governos”, afirmou. Manifestantes ainda pediam ciclovias na periferia.

Durante a madrugada, antes da inauguração, tinta azul foi jogada em um trecho da ciclovia, entre o Museu de Arte de São Paulo (Masp) e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), mas foi retirada após limpeza da Prefeitura com auxílio de caminhão-pipa. O secretário Tatto ironizou o ato. “Deviam estar comemorando (a abertura da ciclovia).”

Elogios. A estrutura da ciclovia e o fechamento da Paulista foram elogiados por ciclistas. “Acho que foi bem planejada, tem segurança. E foi legal também ver a ocupação da cidade. Quando eu olhava a multidão, parecia um sonho, uma alucinação”, disse o técnico de som Gustavo Zysman, de 30 anos.

Cicloativista, o analista de sistemas Diogo Pedrosa, de 34 anos, diz ter ficado emocionado. “No caminho vi várias pessoas trazendo bicicletas nos carros, muita gente prestigiando.”

Moradores do cruzamento da Avenida Paulista com a Rua da Consolação, o advogado Fábio Maia, de 40 anos, e a gerente administrativa Anne Santos, de 37, caminhavam no fim da manhã com a filha e quatro cachorros. O casal manifestou apoio ao projeto da Prefeitura de fechar a Paulista aos domingos. “Achamos sensacional. Aos poucos, o hábito vai pegar. É bacana essa ideia de compartilhar espaços”, afirmou Maia. 

Nem a PM nem a CET informaram quantas pessoas foram ao local neste domingo. Por volta das 12h50, um homem foi preso por policiais militares por furtar uma bicicleta próximo da Avenida Brigadeiro Luís Antonio.

Foi bem: multiplicação de músicos e artistas

Sons de todos os estilos animaram pedestres

Com o fechamento da Avenida Paulista para carros, os ciclistas que passearam pela via neste domingo foram embalados pelas mais diversas trilhas sonoras. Já tradicionais na Paulista, os músicos de rua e o público desses artistas se multiplicaram.

Rock, jazz, samba-rock, a cada quarteirão era possível ouvir um ritmo diferente. Sem a concorrência dos ruídos dos carros e ônibus que tomam a avenida diariamente, o som das canções ganhou força e intensidade. “Parecia que cada parte da Paulista tinha virado uma estação musical. Era muita cultura junta”, comemorava a professora Uaiana Prates, de 32 anos, que foi conferir a inauguração da ciclovia com o marido e a filha, de quatro meses.

Para os músicos, o fechamento da via aumentou a visibilidade do trabalho. “Tocamos há um ano aqui, mas acho que esse foi o show com o maior público, porque antes as pessoas só podiam assistir na calçada. Agora, estava todo mundo tomando a rua”, disse Gabi Suyama, de 26 anos, vocalista da banda Marlas’ Mind, que tocou clássicos do rock.

O movimento também foi comemorado pelo músico Paulo Henrique de Jesus, de 31 anos, da banda Didge Bass Tribe, de som instrumental. “Nós chegamos já no meio da tarde e tinha muita gente. Se a Paulista fechar todos os domingos, vamos vir mais cedo”, diz ele, que toca o instrumento didgeridoo, um objeto dos aborígines da Austrália.

Foi mal: aluguel de bike, uma missão complicada

Estações estavam sem bicicletas e aplicativo falhou

Ciclistas tiveram dificuldade para pegar bicicletas emprestadas neste domingo na região da Avenida Paulista e até em bairros vizinhos. A procura pelo veículo foi maior do que a oferta em boa parte das estações do Bike Sampa, do Itaú, na região da Paulista. Além da grande procura, houve registro de problemas no aplicativo do programa, que mostra o número de bicicletas disponíveis por estação.

“Vi no aplicativo que tinha uma livre na estação da Alameda Jaú e, quando cheguei lá, a bicicleta estava quebrada”, conta o jornalista Rafael Lourenço, de 29 anos. Ele passou por três estações até conseguir pegar uma bike emprestada. Mesmo assim, teve de rodar por mais meia hora para encontrar uma segunda bicicleta, para sua mulher. “Só para achar mais uma bike já perdemos metade do nosso tempo gratuito de uso”, disse ele.

Temendo não encontrar bicicletas nas estações mais próximas da Paulista, a administradora de empresas Monica Moreira, de 47 anos, iniciou sua busca em Higienópolis, onde mora, mas só foi encontrar uma bike disponível na Rua Luís Coelho, após caminhar quase três quilômetros. No local, o aplicativo do programa ainda deu problema e ela teve de ligar para a central telefônica do Bike Sampa para destravar a bicicleta. “Acho que vão ter de organizar esse aplicativo para atender essa demanda maior.”

Os ciclistas ainda reclamaram do horário de encerramento de empréstimo das bicicletas do Bradesco, às 15h.

A assessoria do Itaú não respondeu à solicitação de esclarecimento da reportagem. Nenhum representante do Bradesco foi localizado na noite deste domingo.

Mais conteúdo sobre:
ciclovia Paulista Mobilidade

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.