Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Impactos de incêndio vão durar 5 anos

Especialista aponta contaminação nos arredores dos tanques em Santos; poluentes podem causar chuva ácida e afetar a Serra do Mar

DIEGO ZANCHETTA, FÁBIO DE CASTRO, O Estado de S.Paulo

12 Abril 2015 | 02h01

Os impactos ambientais do incêndio que atingiu seis tanques de uma empresa de Santos, na semana passada, poderão durar pelo menos cinco anos, contaminando plantas e animais. Além disso, com a emissão de poluentes na atmosfera, existe a possibilidade de ocorrência de chuvas ácidas, o que comprometeria a vegetação da Serra do Mar. O alerta é do zoólogo Marcelo Pinheiro, do Campus Litoral Paulista da Unesp.

O incêndio no terminal da Ultracargo - o maior já registrado no Estado de São Paulo - só foi declarado extinto pelo Corpo de Bombeiros na sexta-feira, nove dias após ter começado.

Segundo a Companhia Ambiental do Estado (Cetesb), até agora todos os esforços haviam sido concentrados no controle do incêndio e a avaliação dos danos ambientais terá início só após o rescaldo. Mas, segundo Pinheiro, é provável que a situação da área de estuário e dos manguezais, que já era crítica, fique ainda pior: bilhões de litros de água que foram usados no resfriamento dos tanques voltaram para o ecossistema aquático com resíduos do combustível e dos produtos químicos que compõem a espuma usada para debelar o fogo.

"Não podemos ainda prever com precisão quanto vai durar o impacto. Mas, dependendo da composição química da espuma e da quantidade utilizada, vai levar de cinco a dez anos para que a natureza se recupere e volte à situação original. Na água, esse produto poderá reagir com outros resíduos químicos, formando compostos mais tóxicos. A contaminação pode repercutir por toda a cadeia alimentar", disse Pinheiro. "Além disso, os poluentes lançados na atmosfera podem formar a chuva ácida, que queima o tecido das folhas e impede a fotossíntese, matando a vegetação."

Segundo o gerente da Agência Ambiental de Santos na Cetesb, Carlos Eduardo Padovan Valente, ainda não foram detectadas alterações consideráveis na qualidade do ar. Mas a quantidade de oxigênio disponível na água foi reduzida dramaticamente e a temperatura subiu 7°C acima do tolerável para os peixes, o que causou a morte de oito toneladas deles. "Desde domingo passado não temos mortes de peixes."

As consequências imediatas, porém, são visíveis na região do incêndio. Na Favela Chico de Paula, no mangue ao lado do Porto de Santos, o cheiro lembra o de posto de combustível. Nos carros, moradores apontam marcas de pingos pretos e a fuligem vinda do pátio da Ultracargo, a menos de 500 metros de palafitas e barracos, onde moram cerca de 30 mil pessoas.

A fumaça preta que cobriu a comunidade também agravou a situação de moradores que sofrem de doenças respiratórias. "Estou com uma dor de cabeça que não passa. Quando bate um vento e a fumaça vem com mais força, a gente tem até de fechar a janela", disse a dona de casa Ana Paula Palhas, de 38 anos.

Ana Paula pretendia ir embora do bairro até que as explosões na área do incêndio parassem. "Não consigo dormir de medo. Quando dá um estouro, todo mundo sai na rua."

Na comunidade vizinha, o Jardim São Manoel, os relatos de problemas respiratórios, principalmente entre idosos, se repetem. "Não consigo comer, nada para no estômago. O cheiro vem e já dá aquela ânsia. Parece que estou tomando gasolina", disse o mecânico José Marques, de 78 anos.

Mas problema pior enfrenta quem já tem bronquite ou asma. Com olhos vermelhos e tosse seca, a diarista Joselina Barbosa Souza, de 54 anos, afirmou ter feito inalação todos os dias desde o início do incêndio.

Pesca comprometida. É do mangue que recebe as águas poluídas do Rio Casqueiro que José Antonio dos Santos, de 49 anos, retira tainhas para alimentar as três filhas. Com o incêndio, a pesca foi proibida.

"Já proibiram a gente de pegar o caranguejo-uçá, dizendo que ele está em extinção. Agora vão proibir a tainha, o que vamos comer?", indagava Santina Barros, de 64 anos, presidente da Colônia de Pescadores. Segundo ela, 120 moradores do bairro vivem exclusivamente da pesca da tainha.

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