Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

Impacto ambiental do uso extenso do vidro em fachadas preocupa especialistas

Construções 'pele de vidro' são associadas a uso maior de ar condicionado, colisão de aves e potencialização de ilhas de calor

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2020 | 05h00

Embora esteja hoje mais tecnológico, o vidro utilizado em grande escala em fachadas na construção civil ainda preocupa especialistas pelo impacto ambiental. A situação se torna mais evidente em um contexto em que as mudanças climáticas já enfileiram registros de calor recorde em cidades brasileiras, a exemplo do que viveu São Paulo em outubro deste ano

“No contexto brasileiro, tal fato torna ainda mais evidente a necessidade de um projeto arquitetônico pensado e adequado para cada edifício e localidade”, pontua a arquiteta Mônica Marcondes Cavaleri, pesquisadora sênior do Laboratório de Conforto Ambiental e Eficiência Energética (Labaut) da Universidade de São Paulo (USP).

“O uso indiscriminado de vastas superfícies envidraçadas nas fachadas, muitas vezes sem aberturas para ventilação natural e sem proteções solares, pode ser um agravante para o conforto térmico dos usuários.”

Ela destaca que a elevada incidência solar que essas fachadas geralmente têm geram uma alta demanda por ar condicionado, aumentando o consumo de energia. “Essas situações podem ser previstas no projeto. Diferentes soluções podem ser testadas, com estudos avançados e integrados de iluminação natural e desempenho térmico.”

Essa discussão também ocorre no poder público. Em 2019, por exemplo, o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, chegou a falar em banir novas construções em vidro e aço pela contribuição que teriam ao aquecimento global. Por aqui, uma proibição do tipo está em vigor em Santos (SP) há três anos.

Professora de Conforto Ambiental na Universidade Mackenzie, a arquiteta Erika Ciconelli de Figueiredo destaca também a necessidade de utilizar películas nas fachadas de vidro para evitar a colisão de aves. “É um problema tão grave quanto o do ar condicionado”, reitera. “Aqui, esse assunto é pouco falado. Lá fora é muito mais, especialmente nos Estados Unidos e no Canadá.”

Ela lembra que, na arquitetura residencial, geralmente o uso do vidro costuma ser equilibrado com áreas opacas e elementos de proteção solar, como varandas. “A transmissão luminosa alta faz com que as pessoas sejam obrigadas a fechar as persianas e cortinas”, comenta. Outro ponto é que, ao refletir o calor para fora, o vidro pode aumentar a temperatura no entorno, potencializando ilhas de calor se combinado a outros elementos.

Segundo a professora, há opções tecnológicas que minimizam essas questões, mas, pelo custo elevado, têm menos espaço no País. “Hoje em dia, a arquitetura está muito melhor nesse ponto de vista, bem melhor do que cinco, dez anos atrás.”

Já a arquiteta Cristina Caselli, autora da tese de doutorado Fachada de Edifício Residencial em Vidro no Século 21: Clima, Conforto e Conservação de Energia, lembra que existe certo fascínio pelo material na arquitetura, especialmente por parte dos consumidores. “Tem de ter muito cuidado com as questões técnicas, as normas de desempenho. Cada região do Brasil tem diretrizes determinadas para o seu clima”, argumenta.

Ela considera que esse tipo de proposta ganhou mais espaço no País a partir do momento em que investir em sistemas de refrigeração e ar condicionado se tornou mais barato. “O vidro aqui também é um material que tem fácil disponibilidade”, comenta. “Tecnicamente, tem de ter cuidado. Cada pavimento tem um trabalho diferente em relação ao sol.”

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