Imóveis no 'limbo' viram mico para os proprietários

Processos ficam parados por tanto tempo que, em alguns casos, o dono nem sabe que está sujeito às leis municipais de tombamento

/ NATALY COSTA e RODRIGO BURGARELLI, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2012 | 03h07

Um dos problemas mais visíveis dos imóveis que ficam no limbo do tombamento é o abandono e a descaracterização. Os processos ficam parados por tanto tempo que, em alguns casos, o proprietário nem sabe que está sujeito às leis de tombamento. Em outros, o próprio poder público "esquece" a importância histórica daquele lugar e patrocina a demolição.

Foi o que aconteceu com a casa de número 118 da Alameda Dino Bueno, no centro de São Paulo. "Congelada" desde 1992 e esquecida, servia de abrigo para usuários de droga e ficava na região nacionalmente conhecida como cracolândia. No mês passado, foi posta abaixo pela Prefeitura, que deveria protegê-la do desaparecimento. A justificativa: estava com a estrutura comprometida e poderia desabar. Na tentativa de reparar o dano ao casarão histórico, a Secretaria Municipal de Cultura publicou dias depois no Diário Oficial da Cidade um projeto para recuperar o imóvel, embora só a fachada ainda esteja de pé.

Não muito longe dali, na altura do número 220 da Alameda Glete, também no centro, um quarteirão inteiro de casas em processo de tombamento também há 20 anos chama a atenção. São duas oficinas mecânicas, um salão de cabeleireiros e um botequim.

O dono do imóvel que abriga uma das oficinas, no número 227, é o advogado Aldo Luís Sollitto, que ganhou o prédio de herança da família na década de 1960. "Tombamento? Não sei disso, não. Para mim é novidade", espantou-se. "Tombar o quê ali? Com a cracolândia eles não se preocupam."

Locatário do imóvel no número 257, o cabeleireiro Raimundo do Carmo também desconhece que trabalha em um imóvel com processo de tombamento aberto. Laranja e azul hoje, vermelha outro dia, a fachada é pintada e mexida sem cerimônia.

Abandono. A antiga garagem de bondes e de trólebus do Brás também está no limbo do tombamento. Construída na Avenida Celso Garcia, foi erguida em 1906 em um terreno onde antes havia cocheira para os burros que puxavam os bondes paulistanos antes da chegada da energia elétrica a esse meio de transporte. Em 1968, a garagem passou a abrigar trólebus, função que exerceu até a privatização da Eletropaulo, na década de 1990, quando ficou sem uso.

O prédio abriga hoje a garagem de uma viação de ônibus mas, segundo a São Paulo Transporte (SPtrans), voltará a abrigar um centro de operação dos trólebus após uma reforma. Essa adaptação, porém, deverá sofrer contratempos, pois precisa passar pelo crivo do Conpresp - que costuma demorar ainda mais para aprovar reformas em imóveis não tombados. A garagem é protegida na esfera estadual.

Perto dali, outro imóvel histórico também aguarda a decisão do Conpresp. Trata-se da antiga fábrica da cervejaria Antarctica, na Mooca, adquirida pela companhia em 1906 e hoje abandonada. A atual dona da marca, a Ambev, afirma que o terreno já foi vendido, mas não revela o novo dono. Moradores temem que seja uma construtora interessada em demoli-la para construir prédios.

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