Imóveis esvaziados atraem famílias de sem-teto para bairros nobres de SP

Uma das maiores ocupações da capital fica em Pinheiros; estimativa de movimento só leva em conta invasões de grupos organizados

Filipe Vilicic, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2010 | 00h00

 

Urbano. Com mais de 2 mil metros quadrados, casa noturna abandonada na Rua Cardeal Arcoverde foi tomada por famílias

 

O metro quadrado de um terreno em Pinheiros, zona oeste de São Paulo, custa no mínimo R$ 3 mil. Um imóvel de mais de 2 mil m², como o número 614 da Rua Cardeal Arcoverde, vale R$ 6 milhões e o aluguel, cerca de R$ 80 mil. Desde o ano passado, entre 25 e 32 famílias moram no local onde funcionava, nos anos 90, a casa noturna Urbano, sem pagar nada. É uma das maiores ocupações de imóveis vazios da cidade.

Esse imóvel da Cardeal é exemplo de uma situação que envolve pelo menos 500 famílias, segundo o Movimento Sem-Teto do Centro (MSTC). A estimativa, no entanto, só leva em conta ocupações de grupos organizados, que preferem os bairros do centro. Como essa situação se estende por outras regiões da cidade, incluindo bairros valorizados, esse número tende a ser maior.

No imóvel da Cardeal, a invasão ocorreu logo após a Prefeitura ter interditado o local, em 2007, por falta de licença de funcionamento. Primeiro, um grupo de mendigos ocupou o lugar. "Há dois anos, eu e um colega expulsamos esses caras e tomamos o espaço", contou Ciriu Sudare, o Piauí. "Ambos pagávamos R$ 300 mensais por um quartinho em um cortiço. Vimos esse canto vazio e pensamos "vamos parar de pagar aluguel". E resolvemos morar aqui."

No ano passado, o MSTC contatou Piauí e outros três colegas que moravam lá e pediu para enviar famílias ao imóvel. "Pessoas que tinham sido retiradas de uma invasão no centro receberam auxílio-aluguel durante oito meses, mas não contavam mais com o suporte da Prefeitura e estavam sem casa", diz Hamilton Sílvio de Souza, coordenador do MSTC. Desde dezembro, o imóvel está entre as seis ocupações "oficiais" do movimento.

Quem vive no local paga R$ 100 por mês pela estada. "Não é aluguel", explicou Piauí. "É para arcar com uma faxineira para as áreas comuns e os dois porteiros que tomam conta do lugar."

Um desses "porteiros" é Piauí, que recebe cerca de R$ 600 pela função - ele também trabalha na cozinha de um restaurante. Como "porteiro", contou Piauí, tem de expulsar "drogados e famílias de moradores de rua que tentam invadir o imóvel".

De acordo com a Secretaria Municipal de Habitação, as famílias pararam de receber o auxílio-aluguel porque o contrato durava oito meses. Por e-mail, a pasta informou que "não há previsão de atendimento definitivo dessas famílias, já que existe um cronograma de atendimento prioritário às de outros programas".

Vizinhança. Ainda que o número de famílias ocupando outros imóveis seja menor, os efeitos para a vizinhança são quase os mesmos. Perto do antigo espaço do Urbano há pelo menos três sobrados invadidos: dois na Rua João Moura, nos números 1.017 e 1.523, e outro na Cardeal, próximo da Praça Benedito Calixto.

O número 1.017 da João Moura pertence ao dono de uma gráfica na mesma rua. "Recebi a casa como pagamento de uma dívida", afirmou o dono, que pediu anonimato. "Não sabia que ela estava invadida e, pior, abrigava usuários de drogas. Desconfio que seja ponto de tráfico."

No número 1.523 da mesma rua, um sobrado foi tomado por um homem que atende pelo nome de Manuel. Segundo sua filha, eles ficarão lá até "decidirem demolir o imóvel". Manuel transformou a casa em cortiço e cobra aluguel pelos quartos - alguns improvisados em salas e varandas. Lá, vivem catadores de lixo e jovens usuários de crack. Destino similar teve o imóvel abandonado perto da Benedito Calixto, usado como pensão para ex-moradores de rua.

Nos Jardins, um prédio de nove apartamentos virou lar de mendigos, na esquina das Ruas Oscar Freire e Peixoto Gomide. "Tudo começou quando uma empresa comprou sete apartamentos, mas não conseguiu comprar os outros dois", disse o advogado Diego Martinez, que representa os donos desses imóveis.

Em fevereiro de 2008, o edifício foi interditado e a Prefeitura retirou os sem-teto que haviam invadido o prédio. Neste ano, porém, moradores de rua voltaram a ocupar o local.

REAÇÕES

Eduardo Saretta

Empresário

"Entendo que as pessoas precisam de um teto e possuem necessidades básicas que não são atendidas pelo governo, mas algumas atitudes delas incomodam a região"

"Quando veem que o imóvel tem uso, não entram"

Hamilton Sílvio de Souza

Coordenador do Movimento Sem-Teto do Centro

"Ninguém gosta de um pobre do lado, mesmo que ele não seja um criminoso"

"(Construções não precisariam ser tomadas se) houvesse um política pública eficiente da Habitação"

 

 

 

 

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