Vladimir Platonow/ABR
Vladimir Platonow/ABR

IML de Teresópolis improvisa contêiner

Com capacidade para até 20 corpos por mês, instituto recebe 175 em três dias

Marcelo Auler e Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

14 Janeiro 2011 | 00h00

Estruturado para receber de 15 a 20 corpos por mês, o Instituto Médico-legal de Teresópolis entrou em colapso com a chegada de 175 corpos retirados de escombros - até as 18 horas de ontem. A prefeitura teve de improvisar: comprou um contêiner frigorífico para abrigar os corpos. Na porta do IML, famílias contabilizavam os parentes perdidos. Um cheiro muito forte tomava conta do local e funcionários diziam que lá dentro havia corpos empilhados por falta de espaço.

A situação era tão dramática que, pela manhã, depois de uma noite sem dormir, o juiz José Ricardo Ferreira de Aguiar, da Vara de Família, chegou a dizer, ironicamente: "Prometo dar nome de rua a quem me arranjar uma câmara frigorífica". Àquela altura, ele já tinha buscado ajuda em diversos órgãos oficiais - sem encontrar uma solução.

À tarde, um caminhão frigorífico da Bom Jesus Comércio e Indústria de Pescado estacionou em frente à delegacia onde funciona o IML.

Mas chegou um alerta da Agência Nacional de Vigilância Sanitária dando conta de que o uso do veículo para armazenamento de cadáveres o inutilizaria no futuro para transportar pescados. O ouvidor-geral da prefeitura, Ricardo Raposo, anunciou depois a compra do contêiner, que será doado ao IML futuramente.

Um galpão onde já funcionou uma igreja evangélica, que fica em frente à delegacia, havia sido usado para abrigar os corpos de madrugada, graças à intervenção do juiz. Até então, os mortos estavam amontoados no pequeno pátio da delegacia. Foi neste galpão que as famílias passaram a identificá-los.

O mesmo juiz, em nome da agilidade para a liberação dos corpos, simplificou os procedimentos burocráticos: concedeu alvarás para o enterro dos que tivessem sido reconhecidos pelas famílias mesmo sem que fosse apresentado o documento de identidade - até porque a maioria das vítimas perdeu todos os documentos na enchente.

Do lado de fora, Francisco Salvador Teixeira não sabia como confortar o sobrinho, Jean, de 14 anos, que perdeu os pais. Sete pessoas da família morreram. "Não tive coragem ainda de ir ao local", disse Francisco, em tom baixo, sem forças. Seus parentes moravam ali havia 46 anos. Lourdes Bernardo tinha cinco parentes desaparecidos. Marli Fátima da Rocha perdeu um irmão. Mas seus pais estavam ilhados, porque o pai é doente e não anda.

A prefeitura de Teresópolis estava ajudando as famílias mais pobres. Foi o caso de Andréia Ferreira de Campos, que perdeu nove parentes, inclusive o filho. Os funerais foram pagos pelo Município, que disponibilizou 50 caixões pela manhã e providenciou a abertura de cerca de 180 covas rasas no Cemitério Municipal Carlinda Berlinda.

As buscas por corpos continuavam ontem nos bairros mais castigados, como a região de Campo Grande, no bairro de Posse, e na área rural, em especial nos distritos de Bonsucesso e Vieira.

Abrigo. No ginásio de esportes, no centro da cidade, e em cinco igrejas, três escolas e no galpão de uma cervejaria, no bairro do Meudon, na tarde de ontem estavam alojadas 1.200 pessoas. Elas perderam tudo e não tinham como se abrigar. Outras 1.300 desalojadas conseguiram por meios próprios se acomodar.

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