Wilton Junior/AE
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IML de Teresópolis fica lotado e corpos são levados para igreja

Instituto pediu ajuda à capital, pois tem só uma equipe de legistas. Como a maioria das vítimas está sem documentos, juiz fez mutirão com a Defensoria Pública para liberá-las para o enterro apenas com o reconhecimento de parentes

Bruno Boghossian, Márcia Vieira, Felipe Werneck, Marcelo Auler, Pedro Dantas, Wilson Tosta e Kelly Lima, O Estado de S.Paulo

13 Janeiro 2011 | 00h00

O Instituto Médico-Legal (IML) de Teresópolis, que funciona ao lado do prédio da 110.ª Delegacia de Polícia, vivia um verdadeiro caos no início da noite de ontem. Dezenas de parentes de alguns dos mais de cem mortos na tragédia continuavam em busca de informações sobre as vítimas. Alguns moradores carregavam corpos encontrados sob a terra. Uma igreja da cidade foi usada como local para que os mortos pudessem ser reconhecidos.

Com apenas uma equipe de legistas por dia e acostumados a receber entre 10 e 15 corpos por mês, o IML foi obrigado a pedir auxílio ao departamento da capital fluminense. A cidade do Rio enviou duas equipes ao município da região serrana para auxiliar nas necropsias.

Com ruas e estradas bloqueadas, equipes de buscas têm dificuldade para remover corpos ou tentar resgatar moradores presos sob escombros. "É a maior catástrofe da história do município", declarou o prefeito de Teresópolis, Jorge Mário Sedlacek (PT).

Até as 20 horas, 83 corpos tinham sido levados para o IML e muitos parentes permaneciam no local há quase 10 horas, esperando para liberar os corpos das vítimas.

Era o caso de Maria Isabel Brites de Moura, de 36 anos, cujo irmão, Jorge Brites de Moura, de 46, morreu na casa de um amigo, no bairro Parque do Embuí. O corpo de Jorge, segundo a irmã, foi retirado dos escombros em motocicletas e foi levado para a rua, de onde foi transportado para o IML na picape de uma vizinha. Até as 20 horas, o corpo não havia sido liberado.

Mutirão. Uma das dificuldades enfrentadas pelas famílias das vítimas foi resolvida pelo juiz José Ricardo, da 1.ª Vara de Família de Teresópolis, de maneira rápida e simples. Com a ajuda da Defensoria Pública, ele concordou em dar alvarás de liberação para os corpos para enterro sem a apresentação de qualquer documento oficial do morto.

Uma vez que muitas vítimas perderam seus documentos nas enxurradas e deslizamentos, o reconhecimento por parentes bastaria para permitir o sepultamento. A concessão da certidão de óbito ficaria para depois, por meio de um pedido ao Ministério Público.

Outra família que vivia um drama era a do cabo do Corpo de Bombeiros Ruan Carlos Brito Guarilha, que morreu soterrado dentro de casa, na região do Vale Feliz, próximo à Estrada Teresópolis-Friburgo. Também morreram a mulher dele, Andréa Francisca Vargens, e o filho Ruan Vargens Guarilha, de 7 anos. O irmão de Ruan Carlos estava desde cedo no IML e ainda não havia reconhecido oficialmente o corpo até a noite de ontem.

Caso parecido é o de Marco Antônio Silva de Lima, que perdeu nove parentes no bairro de Bonsucesso: a mãe, cinco irmãos, dois sobrinhos e um cunhado. O atual marido da mãe, que estava no mesmo local, sobreviveu, mas teve de ser levado para o hospital por causa de ferimentos. No bairro do Caleme, o pai de Marco Antônio e dois irmãos perderem suas casas, mas conseguiram escapar sem um arranhão.

Prejuízos. O principal ponto turístico de Nova Friburgo, a Praça do Suspiro, ficou irreconhecível. Antes um local arrumado, cercada pela Igreja de Santo Antônio, o Teatro Municipal e o Tiro de Guerra, a praça virou um cenário de lama e destruição por todos os lados.

Nem a igreja foi poupada. Uma avalanche atingiu os fundos e a lateral do edifício de 1884, que parecia cuspir lama e entulho pelas portas.

Também na Praça do Suspiro está o orgulho da cidade, o maior teleférico de cadeiras duplas do País. No entanto, com o deslizamento e o alagamento, a estrutura foi tomada pela terra e lama. Rodolfo Acri, dono de um complexo turístico na área, era só desolação. "Tenho de ser realista: meu hotel está condenado."

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