Imigrantes latinos engrossam fila por casa própria em SP

Sem condições de pagar aluguel, bolivianos, paraguaios e peruanos se mudam para favelas, cortiços e terrenos invadidos

ARTUR RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

24 Abril 2013 | 02h04

Um drama do primeiro mundo chegou ao Brasil. O aumento da imigração de latino-americanos, como bolivianos, paraguaios, peruanos e haitianos, empurrou esses novos miseráveis para favelas, cortiços e terrenos invadidos na cidade de São Paulo. Sem dinheiro para pagar aluguel, eles se tornam cada vez mais conhecidos dos movimentos sem-teto, que os ajudam a se legalizar e entrar nos programas de habitação.

Só na ocupação Pinheirinho 2, no extremo leste da capital, há pelo menos 20 famílias de bolivianos que tentam conseguir uma casa própria e a inclusão em benefícios do governo. "Há também chilenos, argentinos, nigerianos. Nossos advogados ajudam no processo de legalização", afirma o metalúrgico Jean Carlos da Silva, de 36 anos, um dos coordenadores da ocupação. Após ameaça de reintegração de posse no mês passado, o terreno está sendo desapropriado pela Prefeitura para a construção de moradias.

Em 2009, os acordos do Mercosul que dão direito à residência abriram espaço para que todos os bolivianos, paraguaios e chilenos pudessem ter os mesmos direitos civis e sociais dos brasileiros. Em 2011, foi a vez dos peruanos. Com documentos em mãos, eles passaram engrossar as fileiras dos movimentos sociais na cobrança por uma casa própria.

Morador do Pinheirinho 2 com a mulher e as duas filhas, o boliviano Ivan Apaza, de 30 anos, esperava conseguir uma das casas anunciadas pelo prefeito Fernando Haddad (PT) na segunda-feira passada. "Morava em São Mateus e o aluguel era de R$ 800. Vivia só para pagar o aluguel", diz ele, que aproveitou o anúncio para tirar uma foto com Haddad.

A presença de estrangeiros nas ocupações do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto também é comum. "Se para os brasileiros a situação já é complicada, para um boliviano que é explorado em uma tecelagem é pior ainda", afirma Guilherme Boulos, um dos coordenadores do movimento.

Com ajuda da organização, diz Boulos, um imigrante boliviano já conseguiu um apartamento pelo programa Minha Casa Minha Vida, do governo federal. Ele afirma que, em outros Estados do País, a situação é ainda mais dramática. "Na cidade de Manaus, há uma ocupação do movimento formada praticamente por haitianos", afirma.

Para Boulos, a supervalorização dos imóveis no centro, onde os imigrantes se fixaram na década passada, favorece a expulsão desse grupo para áreas cada vez mais distantes.

Periferia. A boliviana Amanda Ticona, de 42 anos, chegou a São Paulo há dez. "Morava na Casa Verde, zona norte. Agora, só tenho condições de viver no Pinheirinho 2", diz a mãe de quatro filhos, que sobrevive vendendo comida para trabalhadores de oficinas de costura. Seu vizinho, Natan Ventura, de 26 anos, tem de cruzar todos os dias a cidade para chegar ao trabalho. "Levo duas horas para ir e duas para voltar da oficina onde trabalho, no Bom Retiro."

O vice-presidente da Associação de Residentes Bolivianos, Abel Claro, explica que os bolivianos que chegam ao Brasil moram apenas temporariamente nas oficinas de costura. "Após um tempo, eles têm obrigação de alugar uma casa", diz. "Mas se ganham R$ 1 mil, vamos supor, não conseguirão alugar uma casa", acrescenta.

De acordo com estimativa da associação, há cerca de 300 mil bolivianos na cidade de São Paulo. A minoria é regularizada: dados do Ministério da Justiça revelam que, em todo o País, há cerca de 90 mil bolivianos com documentos. / COLABORARAM MARCELO GODOY E NILTON FUKUDA

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