Taba Benedicto/Estadão - 07/04/2022
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Imersão no Castelinho da Apa vira livro com contos de terror

Associação reuniu escritores no imóvel ‘mal-assombrado’ no centro de São Paulo; crime emblemático completa 85 anos

Isabela Moya, especial para o Estadão

11 de abril de 2022 | 05h00

Eles buscam inspiração em meio a mistérios e assombrações. Vinte e cinco escritores se trancaram por uma madrugada de março no castelinho da Rua Apa, construção de 1912 localizada no centro de São Paulo, com objetivo de escrever contos de suspense ou terror que agora serão reunidos em um livro com previsão de lançamento para julho. O palco do encontro não foi aleatório: há 85 anos, um crime assustou a capital e nunca foi devidamente esclarecido

No mês passado, o castelinho recebeu o terceiro encontro do projeto Ghost Story Challenge (Desafio de Histórias Fantasmagóricas, em tradução livre), promovido pela Associação Brasileira dos Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror. Além das imersões, o projeto oferece workshops e talk shows sobre a literatura de mistério permeada por assombrações. 

Os autores começaram a escrever às 22 horas e ficaram até as 8 horas do dia seguinte, em uma maratona que rendeu os 25 contos reunidos no livro O Lado Oculto do Castelo, que será lançado em 2 de julho, na Bienal do Livro de 2022, em São Paulo. O primeiro e o segundo encontros, em 2018 e 2019, também viraram obras literárias: Confinados e Numa Floresta Sombria

Crime

O famoso castelinho localizado na esquina da Rua Apa com a Avenida São João, perto do Elevado Presidente João Goulart, tem fama de mal-assombrado pela história de crime que carrega. Em 12 de maio, completam-se 85 anos desde que uma mãe e seus dois filhos foram encontrados mortos, ao lado de uma arma, dentro do castelinho. 

Na época, em 1937, não houve consenso sobre o responsável pelos assassinatos. A polícia acreditava ter sido um dos irmãos, já os médicos-legistas apontavam que seria o outro. Também despertava desconfiança a posição em que os corpos foram encontrados, lado a lado, e o fato de as balas retiradas do corpo da mãe não serem da mesma arma deixada no local do crime. 

Para os escritores que passaram a noite no local, conhecer a história que ronda o passado do casarão ajudou a entrar no clima de suspense. “Eu não conhecia o castelinho e saber que lá aconteceu um crime influencia bastante na hora da escrita porque cria toda uma atmosfera”, diz Jaques Rodrigo Valadares, um dos participantes do encontro. 

Já a escritora Taís Freitas revela que sua mãe contava a história do crime quando ela era criança. “Desde pequena, eu era ligada à literatura e ao sobrenatural. Era um sonho de criança conhecer o castelinho”, afirma. “Cheguei a ver o casarão na época em que estava em ruínas, bem abandonado. Depois, vi sendo restaurado. Foi uma alegria muito grande participar desse evento, que juntou o terror, que eu adoro, com a possibilidade de viver essa experiência de conhecer o castelinho por dentro.”

O projeto foi ideia de Cláudia Lemes, fundadora da associação e publisher da Rocket Editorial, que há cinco anos se inspirou no desafio original do poeta Lord Byron, no século 19. “Esse encontro foi emblemático, porque dessa brincadeira nasceram a história de Frankenstein, escrita por Mary Shelley quando ela tinha apenas 18 anos, e O Vampiro, de John Polidori, que inspirou Drácula”, explica a expert.

Leia trechos dos contos produzidos

O Casarão das Anas, Debora Gimenes

“Juliana sentiu um cheiro acre vindo da casa de dona Ana Guta. A menina franzina levou a mão ao rosto fazendo uma careta quando se aproximou da janela. Olhou para os lados e achou um caixote de madeira encostado no poste, pegou com bastante facilidade por ser leve e o colocou rente à parede para espiar dentro da casa pelo vitrô da cozinha. Subiu se equilibrando nas pontas dos pés, alheia às pessoas que passavam na calçada atrás de si. Quando olhou pelo vidro empoeirado, achou que estava tendo alucinações, mas ao apertar bem os olhos pôde contemplar uma representação de uma pintura gótica do século XVII. Todas as três Anas estavam caídas e seus corpos, pintados de vermelho.”

A Casa que Pedia, Júlia do Passo Ramalho

“Estou na casa neste instante, quem sabe se caminhar por ela, escrutinando seus cantos e quinas, ela me conte o que eu mesma escondi? Afinal, esta casa e eu, eu e esta casa estamos unidas de uma forma tão intricada que não podemos mais existir se não em uníssonos. Isto é mais uma informação que sei. Como tenho essa certeza, é somente mais um dos tantos mistérios da minha pós-vida.”

Ações Assitenciais

Desde 1996, o Castelinho da Rua Apa foi concedido à organização não governamental (ONG) Clube de Mães do Brasil. Maria Eulina Hilsenbeck, presidente da instituição, explica que o espaço atualmente é utilizado para promover a educação ambiental de crianças e para desenvolver projetos voltados à inclusão de pessoas em vulnerabilidade social.

 

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