Igual a SP, só que mais em conta

Em Jundiaí, loja de luxo tem serviços parecidos com os da capital; custo menor barateia produtos

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2010 | 00h00

A TV de plasma no café ao fundo da loja Ana Violi, a mais sofisticada multimarcas de Jundiaí, não tem apenas a função de agregar luxo ao ambiente. O televisor serve principalmente para distrair os maridos, enquanto as mulheres gastam. "Quando eles vêm com elas, a gente deixa ligado direto no SportTV", diz Ana, que vende dez grifes em oito salas. Uma coleção de brinquedos mantém os pimpolhos quietinhos durante a imersão da compulsiva mamãe nas araras.

São 11 horas de uma quinta-feira útil, mas o clima no fundão da loja é de chá da tarde de sábado. Uma copeira uniformizada serve espressos para um animado grupo de mulheres, que passa a falar sobre o recente ingresso de Jundiaí no universo do alto luxo.

Uma das mais divertidas é a comerciante Regina Lazarini, que se apresenta orgulhosamente como proprietária da maior banca de jornal do Brasil. "Jundiaí inteira frequenta", diz. Com 56 m², a Banca Boulevard tem área para leitura, pufes, TV, ar condicionado e um fluxo mensal de seis mil títulos de revistas. Importadas? "Também! Todas! Vogue, Vanity Fair, Bazaar."

Quem compra?

Ninguém se ofende com a pergunta. Elas mesmas parecem surpresas com o evidente crescimento na demanda por artigos de luxo na cidade. "Muita gente que trabalha em São Paulo e quer sossego vem morar aqui. Isso faz melhorar, naturalmente, a qualidade dos serviços que são oferecidos na cidade", diz Nicinha da Rocha Pereira Elias, de 50 anos, dona de uma multimarcas de sapatos que vende Arezzo, Schultz e Capodarte.

Nicinha orienta suas vendedoras ? como qualquer boa comerciante dos Jardins ? a enviar os sapatos para a cliente escolher em casa. "A executiva da cidade grande não tem tempo de vir à loja, nem de pechinchar. A gente manda nove pares, ela fica com seis", diz.

De acordo com a esteticista Valquíria Domingues da Silva, de 47 anos, dona do Spa Sofistik, a clientela recém-chegada é muito exigente. "Eles não se importam em pagar, mas querem qualidade."

O spa de Valquíria tem 25 anos, mas só há três ela passou a atender em uma casa de 600 m² que fica na frente da loja de Ana Violi, na Rua Eduardo Tomanik, espécie de Oscar Freire local. "Nosso público mudou demais. Não só no poder aquisitivo, mas no nível de informação."

A clientela de Valquíria e suas colegas comerciantes é engrossada por endinheiradas que vêm das vizinhas Valinhos, Itupeva, Vinhedo, Louveira. "Jundiaí oferece estrutura de cidade grande e acesso fácil."

Outra beneficiária da invasão de expatriados paulistanos é a corretora de imóveis Carmem Chamani, de 43 anos. Ela diz que essa leva de novos moradores da cidade chega a pagar R$ 2 milhões por uma casa nos condomínios de luxo que se multiplicam na zona rural de Jundiaí. Carmem vaga entre os muranos, cristais e pratarias da loja Sfilatta. "Adoro esse lugar."

Melhores compradoras. Por enquanto, a peça mais cara da loja de Ana custa R$ 2.500. É um vestido da grife Huis Clos. O valor é um quarto do cobrado, por exemplo, por um Chanel com 50% de desconto na liquidação da Daslu.

Não que a jundiaiense não tenha cacife para comprar. Ao contrário: de acordo com as comerciantes da Eduardo "Oscar Freire" Tomanik, quem abastece "de verdade" a Daslu são clientes de outros Estados e do interior, inclusive de Jundiaí. "Além de tudo, elas pagam com dinheiro vivo", dizem.

As vendedoras do luxo se ressentem de que muitas de suas clientes acham mais chique comprar "exatamente a mesma coisa" em São Paulo.

"Você não sabe como é difícil, às vezes, segurar o jundiaiense para ele não ir comprar na Cleusa, na Mickey. Quando a filha da subprefeita se casou, não quis fazer a lista aqui. Disse que conhecia pouca gente em Jundiaí. Precisa ver a quantidade de pessoas que apareceram perguntando da lista", conta Ofélia Cardelaquio, de 52 anos, da Sfilatta ? algo como a Cecilia Dale jundiaiense.

O mais curioso é que a mesma mercadoria pode custar até 20% mais barato em Jundiaí, se o preço não for tabelado. "Uma loja do Alexandre Herchcovitch na Haddock Lobo, por exemplo, tem gastos muito superiores de IPTU, luz, gás e até com os salários de vendedores. O mark up é repassado na mesma proporção", diz Ana.

Esses marcadores não parecem inibir a voracidade consumista da mulher jundiaiense. "Adoro ir a São Paulo. Não só para comprar, mas para comer nos restaurantes e passear nos Jardins", reconhece Regina Lazarini.

Ela diz que não consegue colocar tudo o que tem dentro de um mesmo campo de visão. Depois de avançar na parte do guarda-roupa reservada ao marido, ela mandou construir um closet de 50 m² e, ultimamente, está ocupando o quarto vizinho.

"Gente, eu acho que perdi a referência. Outro dia vi o anúncio de um apartamento de 70 m². Esse é o tamanho do meu quarto!"

Outra pergunta delicada: existe ocasião para usar tanta roupa? "Muitas", garantem. "Almoços beneficentes, casamentos, batizados."Ainda por cima, Jundiaí é baladeira.

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