NILTON FUKUDA/ESTADÃO
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Igreja cria Vicariato Episcopal para a Educação e a Universidade

Trabalho de aproximação com escolas e universidades será conduzido por um dos bispos auxiliares da Arquidiocese de São Paulo, d. Carlos Lema Garcia

Entrevista com

José Maria Mayrink, O Estado de S. Paulo

28 Julho 2015 | 17h20

Preocupado com a ausência dos jovens nas paróquias, o arcebispo de São Paulo, cardeal Odilo Scherer, criou o Vicariato Episcopal para a Educação e a Universidade, com o objetivo de levar a Igreja às escolas, onde eles se encontram. Um dos bispos auxiliares da Arquidiocese de São Paulo, d. Carlos Lema Garcia, responsável por esse trabalho de aproximação, visita salas de aula para conversar com professores e alunos sobre formação religiosa. O primeiro alvo são as escolas católicas, dos colégios à Pontifícia Universidade Católica (PUC), que devem assumir sua identidade,  mas o bispo pretende chegar também às escolas públicas. Em entrevista ao Estado, ele falou de seu trabalho:

Educação católica ou educação em geral?

A ideia do Vicariato Episcopal para a Educação e a Universidade provém da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), de 2013, em que se juntaram milhares de jovens procedentes de diversos lugares do Brasil, também daqui da Arquidiocese. Uma multidão de jovens andando pelas ruas e depois reunida na Praia de Copacabana. O cardeal Odilo Scherer se perguntou: onde estão todos esses jovens, se não os vemos em nossas paróquias? Se eles estão em nossas escolas, em nossas universidades, vamos criar uma estrutura na Igreja para estarmos presentes nas escolas e nas universidades. Foi criado um Vicariato, confiado a um bispo auxiliar, no caso eu, para tornar mais viva a presença da Igreja em todas as escolas católicas.

Como atua o Vicariado?

A missão do Vicariato é muito ampla. Pretendemos potencializar melhor as escolas católicas, que têm por missão a evangelização. Tenho feito visitas e dito que uma escola católica - que tem seus alunos por vários anos, pois durante 12 anos eles estão na escola e recebem aulas de ensino religioso - é uma oportunidade muito boa para que eles conheçam os ensinamentos da Igreja e, respeitando a liberdade de cada um - aqueles que o desejarem podem solicitar a catequese para preparar-se para os sacramentos, a primeira eucaristia e o crisma.

Seu campo são só as escolas católicas?

Nossa ideia é atingir também os colégios públicos. Fizemos um levantamento que mostra que na área da Arquidiocese de São Paulo existem cerca de 400 escolas do município e 400 do Estado, além de algumas federais, dos ensinos fundamental e médio. Pretendemos estar presentes nessas escolas. Participamos de um projeto do Ministério da Educação (MEC) de mobilização dos pais para acompanhamento da vida escolar de seus filhos. Estamos distribuindo por meio das paróquias uma cartilha do MEC. Quando os pais se interessam mais assiduamente pelo estudo dos filhos, o rendimento cresce. Vamos estender às escolas públicas as visitas que temos feito às escolas católicas. São cerca de 80 escolas católicas, no total de umas 150 escolas particulares na arquidiocese.

São escolas católicas de fato ou só no nome?

Muitas escolas têm o carisma de educação, como as escolas dos salesianos e dos jesuítas, por exemplo. Um fenômeno frequente é que diminuiu o número de religiosos presentes nas escolas. O trabalho do Vicariato consiste em acompanhar as escolas e oferecer uma formação maior para os leigos. A direção dessas escolas católicas tem passado para as mãos de leigos. Existe uma preocupação das próprias congregações religiosas e também do Vicariato de melhorar a formação, para esses leigos manterem a identidade católica de suas escolas.

Esse esforço se estende às escolas de ensino superior?

Estamos fazendo visitas às universidades. Há cerca de 12 universidades católicas em São Paulo - são 11 além da PUC. Uma escola católica pode dar aula de ética para os alunos, pode promover trabalhos de voluntariado, um trabalho muito atraente. Não só católicos, qualquer um pode participar. O contato com pessoas mais necessitadas as aproxima de Deus.

Como está o ensino religioso, que não é só de escolas católicas?

O ensino religioso ainda não está resolvido nas escolas oficiais. Embora seja previsto no artigo 11 do acordo do governo brasileiro com a Santa Sé, há uma ação do Ministério Público no Supremo Tribunal Federal que questiona esse artigo. Oficialmente não existe ensino religioso na escola pública.

O prédio da Cúria Metropolitana tem ao lado duas escolas particulares - o Colégio Sion e o Rio Branco. Os dois têm catequese para preparação da Primeira Eucaristia, embora o Rio Branco não seja um colégio católico.

Essa foi uma descoberta que nos alegrou muito. Vieram aqui umas senhoras que são catequistas e explicaram como estão fazendo o trabalho no Rio Branco. Existem umas dez escolas particulares que não são católicas, mas oferecem aulas de catequese. Por exemplo, o Colégio Dante Alighieri, com milhares de alunos, tem um grupo de catequistas há uns 40 anos. Fazem catequese para os alunos católicos.

Há escolas católicas que cortaram a catequese, alegando os pais têm de se integrar na paróquia. Acontece que muitos pais somem, ficando os filhos sem a catequese colégio e na paróquia.

Esse é o risco, abandonar a catequese e deixar as crianças sem formação. A ideia original é facilitar para aproximar as pessoas da Igreja. A preparação pode ser feita na escola e a cerimônia da Primeira Eucaristia pode ser feita na paróquia. É, como o papa Francisco está dizendo agora, uma Igreja em saída que vai aonde as pessoas estão.

E a universidade?

Na universidade há várias frentes. Existem já grupos católicos de estudantes que se reúnem nas universidades. Em duas ocasiões, reunimos cerca de 80 jovens, todos alunos da USP, numa paróquia ao lado, de movimentos laicais e novas comunidades, que fazem reuniões frequentes nos intervalos de aula ou nos horários de almoço. Estamos promovendo para esses grupos alguns eventos maiores, como uma vigília eucarística, a pedido deles, em 12 de dezembro do ano passado. Iniciamos com a celebração da missa e deixamos o Santíssimo (Sacramento) exposto à noite. Contamos com uns 400 participantes nessa primeira vigília.

A PUC é mais católica do que outras universidades? Como é uma Pontifícia Universidade Católica, esse título facilita a identidade religiosa?

Perfeitamente. Sendo pontifícia, a universidade tem uma dependência direta do Vaticano. O reitor ou a reitora eleitos têm de ter o nome aprovado pela Santa Sé. É pontifícia e é católica em sua missão e em seu ideário. Ela foi fundada com a intenção de abrir ao mundo acadêmico a possibilidade de pesquisa e de aprofundamento, mas também de contribuir para o conhecimento da cultura católica, da cultura cristã. A PUC é aberta a todos os tipos de origem religiosa ou não religiosa. Mas, como acontece em todas as escolas católicas, as pessoas sabem que é uma instituição da Igreja. A mantenedora é a Fundação São Paulo e o grão-chanceler é o arcebispo.

A universidade tem autonomia acadêmica? Tem liberdade de pesquisa, de estudo, em todas as suas áreas?

Por que então, em episódio recente, a direção da PUC vetou a criação da Cátedra Michel Foucault?

É uma questão que está sub judice. Foi uma proposta feita à Fundação São Paulo que seu Conselho Superior não aceitou. Os membros do conselho são o cardeal arcebispo, a reitora da PUC e os bispos auxiliares.  O veto se explica pelo fato de, dando um nome à cátedra, a instituição estar prestando oficialmente homenagem a uma pessoa. Não se proíbe o estudo nem a pesquisa.

Isso porque Foucault tinha uma posição contrária à doutrina da Igreja...

É bem questionável. A posição de Foucault era bem eclética. Houve um tempo em que ele foi comunista, depois deixou o Partido Comunista. A questão está sob julgamento.

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