Idoso morre e família aguarda carro funerário por mais de 16 horas

Serviço Funerário do Município de São Paulo disse que o calor tem aumentado o número de óbitos e a demanda

Bárbara Ferreira Santos, O Estado de S. Paulo

11 Fevereiro 2014 | 18h53

Atualizado sexta-feira, 14, às 18 horas. 

SÃO PAULO - Um idoso de 88 anos morreu nessa segunda-feira, 10, e a família aguarda há mais de 16 horas a chegada do carro do serviço funerário da cidade de São Paulo para levar o corpo para o Instituto Médico Legal (IML). Até as 15h40 desta terça, 11, o corpo do aposentado Deolindo Tavares da Silva ainda estava na casa da família, no Jardim São Rafael, na zona sul. "Todo mundo aqui está chateado e chocado. A gente é pobre e não tem como pagar um carro funerário. Minha mãe é aposentada, ganha um salário mínimo e todo o dinheiro que recebe gasta com remédio", explica o filho do idoso, Jeremias Tavares da Silva, de 47 anos, operador de produção. "Ainda nem sabemos a causa da morte porque o corpo não foi para o IML ainda."

Deolindo esteve no domingo no pronto-socorro para fazer exames. Segundo a família, ele tinha problemas no coração, inflamação na próstata, pedras na vesícula e nos rins. Nesse domingo à noite, o idoso voltou a passar mal e, por volta das 22 horas, a família chamou uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). O resgate só chegou após as 23 horas, depois que o aposentado já havia morrido. "Primeiro, ficamos um tempão no telefone e só ficava na música de espera. Depois que conseguimos falar, mais de uma hora de espera", explicou Jeremias.

A família já fez um boletim de ocorrência no 85º DP (Jardim Mirna) para comunicar o atraso do carro funerário. Na tarde de hoje, parentes do aposentado ligaram para serviço funerário da Prefeitura para saber quando buscariam o corpo, mas a resposta do órgão aos familiares foi de que havia apenas um carro funerário para atender toda a zona sul da cidade. "Eles disseram que tinha muitos pedidos, muitas ocorrências e que só tinham um carro à disposição para atender todo mundo", afirma a nora do aposentado, Urania Souza Tavares, de 24 anos, assistente de operações.

Segundo os familiares, até as 15h40 desta terça o corpo ainda estava no quarto do aposentado, com um ventilador ligado para evitar o mau cheiro. "Está sendo muito constrangedor para a família. O corpo está em casa, improvisado, e não pudemos fazer ainda um velório. Vieram conhecidos de outra cidade para se despedir e se deparam com aquela cena forte", explica Urania.

Calor. Em nota, o Serviço Funerário do Município de São Paulo (SFMSP) informa que "a saída dos veículos do SFMSP obedece a uma ordem de chegada dos talões de pedidos enviados pelo Centro de Comunicações e Operações da Polícia Civil".

De acordo com o Serviço Funerário, o carro que saiu para recolher o corpo de Deolindo tinha, no total, cinco pedidos de recolhimento a fazer. "O tempo requerido deve-se ao deslocamento do veículo de recolha conforme ordem de chegada dos talões e também ao tráfego pesado e índice de congestionamento registrado na cidade", diz a nota. O Serviço Funerário também informou que "a autarquia conta com quatro veículos para transporte de corpos para o Serviço de Verificação de Óbitos da Capital"

O órgão diz que "a onda inesperada de calor, que aflige especialmente a região Sudeste do País, provocou um grande aumento no número de falecimentos registrados pelo SFMSP. No mês de janeiro de 2013 foi de 4.355 e em janeiro de 2014, 7.241, o que caracteriza um aumento repentino e estatisticamente inesperado de 66,2% de óbitos para o mês".

Após divulgar os dados, o serviço funerário afirmou nesta sexta-feira, 14, que os números anteriormente informados estão sendo novamente “levantados” e que, “neste momento”, não são válidos. O erro ocorreu porque os dados citados pelo órgão de janeiro de 2013 são do Programa de Aprimoramento das Informações de Mortalidade da Prefeitura (que considera números também da Secretaria Municipal de Saúde, por exemplo) e os dados de janeiro de 2014 foram coletados apenas pelo serviço funerário. O serviço funerário não sabe ainda especificar os dados estatísticos corretos, mas afirmou que fará um levantamento até terça-feira, 18. Apesar de não confirmar os números, o órgão mantém que "as estatísticas comprovam que o calor é a principal causa desse aumento no número de mortes". 

Samu. A coordenação do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU-SP) informou, em nota, que vai abrir um processo administrativo para apurar os procedimentos adotados em relação a Deolindo Tavares.

"O SAMU-SP esclarece que às 22h45 recebeu a ligação para atender a ocorrência e chegou ao local às 23h52. Na ocasião, as ambulâncias estavam empenhadas em outras ocorrências de urgência e emergência", disse a nota.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.