WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Idoso morre após ser atropelado por ciclista embaixo do Minhocão

Zelador de prédio saía de casa para comprar pão; ciclista disse que não tinha visibilidade no local do acidente

Bruno Ribeiro, Luiz Fernado Toledo e Rafael Italiani, O Estado de S. Paulo

19 de agosto de 2015 | 10h30

Atualizada às 22h41

SÃO PAULO - O zelador aposentado Florisvaldo Carvalho da Rocha, de 78 anos, morreu na segunda-feira, 17, como consequência do atropelamento por uma bicicleta na Avenida General Olímpio da Silveira, embaixo do Minhocão, em Santa Cecília, no centro da capital. Na segunda-feira, ele saiu do prédio onde morava e trabalhava para comprar pão quando foi atingido na rua pela bicicleta do administrador de empresas Gilmar Raimundo de Alencar, de 45 anos. O acidente aconteceu duas semanas após a inauguração de uma ciclovia no local, aberta em meio à polêmica sobre sua segurança.

Ciente das críticas, especialmente sobre a falta de visibilidade causada pelas vigas do Minhocão, o prefeito Fernando Haddad (PT) disse, em entrevista, que vai aguardar as investigações do caso antes de tomar providências

Alencar - que prestou socorro a Rocha na hora do acidente -, chamou o Resgate com seu celular e se colocou à disposição da Justiça. Ele disse nesta quarta que o acidente se deu fora da ciclovia, como já foi averiguado pela polícia. O administrador trafegava com a bicicleta na faixa à esquerda da rua, usada pelos ônibus, de onde só pretendia sair para cruzar a avenida em direção a Perdizes, zona oeste, onde trabalha. “Ele (Rocha) não deve ter me visto por causa da pilastra. Também não o vi.”

O administrador, morador do Belém, na zona leste, diz que vai ao trabalho de bicicleta há dois anos. Soube da morte quando voltava para casa e decidiu passar na casa da vítima. Disse que lamentava o ocorrido e contou ser favorável à criação da rede de ciclovias. “Mas ali, com aquelas vigas bloqueando a visão, está muito malfeito.”

O delegado Lupércio Antônio Dimov, do 23.º Distrito Policial (Perdizes), ouviu o depoimento de Alencar nesta quarta e disse que fará uma reconstituição do acidente até esta sexta. “Ele declarou que estava a mais ou menos 20 km/h. Não tem como uma bicicleta desenvolver muito mais velocidade que isso.”

Mesmo assim, segundo nota da Santa Casa de Misericórdia, o acidente fez com que Rocha desse entrada no hospital na segunda com trauma cranioencefálico grave. “Foram realizadas medidas de suporte avançado de vida e exame de tomografia, mas com a gravidade do quadro, o paciente faleceu”, informou o hospital.

Viúva depois de 43 anos de convívio com Rocha, a dona de casa Erenita Carvalho da Rocha, de 70 anos, classificou o acidente como uma “morte estúpida”, ao falar do caso no apartamento do casal, antes de Rocha ser enterrado, no Cemitério São Pedro, na Vila Alpina, zona leste. “Fiquei desesperada. Ainda estou com o coração muito entristecido. Com muita dor de ter acontecido isso com ele”, contou. Rocha havia ficado três meses em uma cadeira de rodas depois de um ataque epilético, o que exigiu esforço da família até a recuperação recente.

Segurança. A morte sob o Minhocão manteve acessa a polêmica ao redor da ciclovia. O diretor da Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo (Ciclocidade), Daniel Guth, tratou o caso como “uma fatalidade”, que não deve colocar em xeque a proposta. “Foi fora da ciclovia. Tudo se voltou como uma revolta pela infraestrutura, como se ela estivesse toda errada. Ela tem problemas que podem induzir a conflitos, mas que podem ser reduzidos”, disse.

“Nunca vi ninguém questionar a circulação de carros na rua após o atropelamento de um pedestre. A gente sabe de cada ciclista que morreu, fazemos um ritual porque não queremos transformar em estatística. A perspectiva de tirar a ciclovia é fingir que tirou um problema.”

Entretanto, moradores de Santa Cecília, já contrários às ciclovias, reforçaram as críticas: “Moradores e comerciantes de Santa Cecília alertaram, inúmeras vezes, o prefeito e demais autoridades acerca dos riscos decorrentes do evidente improviso do projeto. A falta de planejamento constitui aberração, pelo desperdício de recursos públicos e por ser um emblema da ausência de diálogo entre os gestores da cidade e a população, o que compromete drasticamente a segurança e a acessibilidade em São Paulo”, disse o presidente do Conselho de Segurança de Santa Cecília, Fabio Fortes.

Moradores ainda marcaram um protesto por causa do acidente para o próximo domingo, às 10 horas. / COLABOROU RAQUEL BRANDÃO

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