Wendell Marques/Estadão - 26/09/20
Wendell Marques/Estadão - 26/09/20

Segundo caso de ataque por tubarão é confirmado em praia de Ubatuba

Caso aconteceu na última segunda-feira, 15, na praia do litoral norte do Estado. Foi o segundo registro em duas semanas na mesma região

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2021 | 12h26
Atualizado 18 de novembro de 2021 | 16h35

SOROCABA – Estudo realizado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) confirmou como sendo de tubarão o ataque sofrido por uma idosa de 79 anos, na segunda-feira, 15, em Ubatuba, litoral norte de São Paulo. Ela se banhava na Praia Central quando foi ferida. Foi o segundo ataque registrado em praias da cidade turística em menos de um mês. No dia 3 de novembro, um turista francês foi mordido por um tubarão na Praia do Lamberto, mais distante do centro.

O pesquisador da Unesp, Otto Bismark, especialista em tubarões, examinou fotos do ferimento causado pelo ataque e vídeos da praia em que a turista nadava, a mais movimentada da cidade. Segundo ele, as lesões podem ter sido produzidas pelo tubarão-tigre ou o cabeça-chata, espécie de porte médio.

A extensão e formato da ferida coincidem com as características da mordida dessas espécies. Embora o tubarão-tigre possa chegar a 6 metros de comprimento e o cabeça-chata atinja até 3,5 m, o peixe que atacou a idosa é menor, podendo medir cerca de um metro ou pouco mais. As duas espécies são comuns no litoral paulista e se alimentam de sardinhas e até de peixes maiores.

Os laudos médicos e imagens enviadas ao pesquisador mostraram que a idosa teve um corte de cerca de 25 centímetros na perna. Conforme a prefeitura, ela foi socorrida pelos salva-vidas, levada pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) à Santa Casa e recebeu sutura no ferimento, além de medicação e vacina antitetânica. A vítima, que passava o feriado da Proclamação da República na cidade, retornou com os familiares para o interior de Minas Gerais, onde reside.

O estudo descreve as espécies do animal como tubarão-tigre ou cabeça-chata, ambos “formidáveis predadores costeiros quando adultos”.

Ressalvando que esses animais se alimentam principalmente de peixes de porte médio, o documento revela que a mordida deixou a marca de cinco dentes e causou um corte de 25 cm de extensão, expondo a musculatura da panturrilha, além de lesionar vasos. Indica, ainda, que o tubarão não usou toda a força da mandíbula e, aparentemente, largou a presa. Ou seja, a mordida teria cunho investigativo, já que o tubarão não removeu parte da pele ou carne da pessoa.

Bismark identificou cinco perfurações compatíveis com dentes grandes e largos e com bordas serrilhadas. “A lesão resultou na exposição da musculatura superficial da panturrilha e micro lesões em alguns dos vasos superficiais da mesma. A lesão é resultante de ação mecânica ativa de agente externo animado (animal marinho em movimento)...”, descreve, acrescentando que a ação perfurante e cortante não foi acompanhada de grande pressão, como se o animal não tivesse mostrado interesse pela presa.

O especialista afirma que o tubarão abordou a mulher pelo lado esquerdo, vindo no sentido fundo-raso, ou seja, do mar em direção à praia.

Com base nesse conjunto de observações, ele concluiu que o agente causador do trauma foi uma espécie de tubarão  de médio a grande porte, com cabeça arredondada, focinho curto, de boca proporcionalmente larga em relação ao comprimento, dentes largos, serrilhados, moderadamente recurvados e com espaçamento interdental.

Cuidados na água

Diante dos dois ataques já confirmados de tubarões a banhistas em Ubatuba, o presidente do Instituto Argonauta e diretor do Aquário de Ubatuba, Hugo Gallo Neto, emitiu nota recomendando cuidados aos banhistas que procuram as praias da cidade. “De forma preventiva, achamos que as pessoas não devam deixar de frequentar o mar, mas tomem algumas medidas de precaução”, disse. Ele recomenda aos banhistas ficarem sempre em grupo, já que os tubarões normalmente atacam pessoas solitárias.

As pessoas não devem se afastar muito da praia, onde ficarão isoladas e longe da assistência. “Não avançar para águas profundas, não ultrapassando, de preferência, o ponto onde alcança o pé. Evitar nadar de manhã cedo e ao final da tarde, quando os tubarões são mais ativos. Não entrar na água se estiver sangrando de um ferimento”, prossegue.

As pessoas também devem evitar o uso de jóias brilhantes ao entrar no mar, não bater constantemente na água e não banhar-se com pequenos animais, como cães. Também recomenda não nadar em meio a cardumes de peixes ou próximo a pontos de pesca, evitando nadar quando a água estiver muito turva.

Conforme Gallo, no mundo existem cerca de 380 espécies de tubarão, sendo que no Brasil são cerca de 80. Das espécies brasileiras, somente 12 podem trazer no currículo a má fama de terem causado incidentes com seres humanos.

“Este grupo de peixes, na verdade, se encontra extremamente ameaçado pelas alterações no ambiente e pela pesca, em especial o ‘finning’, que visa tão somente aproveitar as nadadeiras dos animais capturados, que atingem altíssimo valor no mercado asiático, descartando o restante do pescado”.

Turista francês ficou ferido no início deste mês

No dia 3 de novembro, feriado de Finados, um turista francês também foi atacado por um tubarão em Ubatuba. Ele sofreu cortes de até dez centímetros na perna e foi atendido em um hospital da Caraguatatuba. A espécie do tubarão que promoveu o ataque ainda não foi identificada.

De acordo com o Instituto Argonauta, que monitora as praias da região, até então, não havia registro de ataques de tubarões na região nos últimos 30 anos. Conforme Bismark, nesta época do ano esses peixes se aproximam da costa para reprodução e em busca de alimentos.

Prefeitura analisa casos e praias seguem liberadas

A prefeitura de Ubatuba informou em nota que solicitou laudos técnicos junto a especialistas que confirmem que se tratam de ferimentos provocados por tubarão. “Até o momento não tivemos resposta, portanto, não é possível afirmar que se tratem de tubarões”, disse, na manhã desta quinta-feira, 18. 

As praias, por ora, continuam liberadas para banhistas. “A prefeitura segue alerta e irá tomar as devidas providências a partir das definições técnicas, amparadas no diálogo com pesquisadores acadêmicos, vinculados à universidade e demais órgãos que atuem na área de biologia marinha”, acrescentou.

Especialistas ponderam que, até aqui, os indícios não são suficientes para configurar um padrão de risco. Os ciclos naturais dos animais na busca por alimento e reprodução, além de mais gente dentro da água, podem estar favorecendo os registros vistos neste mês, apontam pesquisadores.

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