Iate clube do rio investiga venda de obra

Quadro de Djanira teria sido comprado por sócios, mas diretoria diz que não há registro

Gabriela Moreira / RIO, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2010 | 00h00

A venda de uma gravura da obra Pescador, de Djanira da Motta e Silva, que pertencia ao Iate Clube do Rio, está intrigando a diretoria da associação. Ontem, um casal de sócios que afirma ter comprado a peça por R$ 2 mil e a atual diretoria, que desconhecia a transação, se reuniram.

Os compradores levaram recibo para comprovar a venda, mas os diretores afirmam que a operação não foi registrada. Até ontem, numa página de relacionamentos, o Iate Clube mantinha um link com o apelo: "Procura-se quadro de Djanira". A instituição referia-se à obra como pertencente ao patrimônio do Iate Clube.

Nos próximos dias, o conselho do clube vai reunir informações sobre o caso, para saber se a obra foi vendida pelo preço que deveria. "Vamos tentar aprofundar a questão. Não sabemos se o quadro passou por alguma avaliação para se chegar ao valor pelo qual foi vendido", disse o diretor-secretário, Jomar Pereira da Silva.

Para a especialista em obras de arte Soraia Cals, o valor pago pela sócia está acima do de mercado, caso seja, de fato, uma gravura. Segundo ela, um exemplar de Pescador em tamanho reduzido está na faixa de R$ 1,5 mil. "Se for um original de guache sobre papel pode custar R$ 12 mil. Se for óleo sobre tela, cerca de R$ 25 mil", avaliou.

Quadro original. De acordo com o diretor, o casal que comprou a obra afirma que o exemplar é original. "Eles afirmam ser um exemplar original feito a óleo", afirmou Silva.

Segundo ele, o quadro foi doado ao Iate Clube pela própria Djanira. "Todo artista que expunha suas obras aqui deixava um exemplar com o clube", disse o diretor.

Ainda de acordo com Silva, o pagamento teria sido usado pela antiga diretoria para comprar livros para a biblioteca do Iate Clube. "Mas não há registro disso. Vamos verificar se os livros foram comprados."

Djanira nasceu em Avaré, São Paulo, em 1914, e morreu no Rio, em 1979. Acometida por tuberculose aos 23 anos, ela mudou para o bairro carioca de Santa Teresa por causa do ar puro. Ali entrou em contato com importantes pintores, como Carlos Scliar e Milton Dacosta. O ambiente artístico incentivou a jovem Djanira a desenvolver seu talento.

Conhecida pela habilidade em retratar o povo brasileiro e as festas religiosas em seus quadros, consagrou-se nas décadas de 1940 e 1950. Em 1942, participou do Salão Nacional de Belas-Artes. O Pescador pertencente ao Iate Clube ficava exposto no espaço conhecido como Corredor da Rainha, local por onde a rainha Elizabeth passou, após desembarcar de seu iate, no terreno do clube, em visita ao Rio.

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