Hussein, do design às rezas voltadas a meca

Aos 36 anos, o empresário muçulmano é nome conhecido de arquitetos, artistas, [br]grafiteiros e designers. E agora investe em galeria, álbum de figurinhas e carros

Valéria França, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2010 | 00h00

O jovem empresário Houssein Jarouche, de 36 anos, costuma ser visto nos Jardins, zona sul de São Paulo, com um de seus oito carros antigos. Entre eles há um Mini Cooper, preto e branco, com o teto todo grafitado pela dupla Mulheres Barbadas ? Henrique Lima e Julio Zukerman, eleitos pela revista inglesa Computer Arts como os mais influentes do mercado.

Houssein é amigo dos grafiteiros, assim como de vários artistas plásticos, arquitetos e designers que fazem parte, digamos, de uma facção alternativa, na qual ele se encaixa bem. Boina de tricô, camiseta, jeans e várias tatuagens no braço, o empresário muçulmano não toma bebida alcoólica e ora cinco vezes ao dia, como pedem os costumes tradicionais de sua religião.

Por essa turma de artistas despretensiosos, porém talentosos, ele vem sendo considerado uma espécie de mecenas moderno, um incentivador do design nacional. "Houssein é um empresário que investe no conteúdo", elogia Guto Requena, arquiteto e professor do Istituto Europeo Di Design (IED).

O artista plástico Abdiel Vicente, de 35 anos, apresentou ao empresário um projeto de produção de caçambas pequenas, como se fossem objetos de arte. "A ideia era chamar a atenção para a questão do lixo e lembrar ao paulistano da importância da reciclagem", conta Vicente.

Detalhe: teria de ser vendido a preço acessível. Não seria para ganhar dinheiro, mas para conscientizar o público. Houssein gostou da ideia. Apoiou e comercializou as minicaçambas na Micasa, loja de design que tem na Rua Estados Unidos, nos Jardins.

O projeto foi além. A dupla se juntou a outros artistas para customizar uma caçamba de verdade, em tamanho natural, que hoje está exposta na Casa Cor, no Jockey Club, na zona sul. Ali vem sendo colocado todo o lixo reciclável do evento para depois ser leiloada. O dinheiro arrecadado vai para uma ONG. "Projetos como esse batem com a minha ideia de design", diz Houssein, como é mais conhecido no meio. "O design não precisa custar uma fortuna. Ele tem uma função no espaço e pode ser acessível."

Com esse foco em mente, desde que abriu a Micasa, o empresário agregou ao negócio outras pontas de trabalho. Nos fundos da loja, por exemplo, abriu o Estúdio 20.84, montado para pesquisar e formular objetos desenvolvidos a partir de materiais reciclados e de pesquisa tecnológica, que garanta a qualidade. O Estúdio projetou, por exemplo, um berço cuja estrutura é um carrinho de transporte de mercadorias. "Levei um desses em casa", conta Houssein, que tem um filho, Aly, de um ano e meio, com a estilista Adriana Barra. Também bolou uma luminária baseada no modelo de plástico usado em mecânicas.

A casa do lado. Antes do Estúdio, há dois anos, Houssein comprou a casa vizinha para abrigar um espaço de exposição e performances batizado de Do Outro Lado do Muro. No primeiro andar, um dos quartos foi totalmente grafitado pela dupla Mulheres Barbadas. No térreo, uma instalação com cabos e iluminação especial dá ares de galeria ao local.

"Costumo levar meus alunos da pós-graduação para visitar a Micasa, porque a loja reúne de peças nacionais de designers desconhecidos a marcas internacionais importantes, como a inglesa Established & Sons", diz Requena, que se refere ao espaço como se fosse um museu. "A Micasa é diferente das outras lojas, que vendem muito design de Milão e esquecem do resto do trabalho do mundo."

Houssein diz que as portas da loja estão abertas às visitas. "Quero divulgar o design", conta. "Cheguei até a publicar um álbum de figurinhas com peças-chave de artistas famosos. É importante ter referências." Mas isso não quer dizer que ele não se preocupe com as vendas.

Comerciante. Filho de libaneses, ele tem o comércio nas veias. O pai começou no ramo moveleiro, na Rua Jurubatuba, em São Bernardo do Campo, um corredor de lojas disputado como a Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros. E foi lá que começou a Micasa. "Ninguém da minha família acreditava no negócio." Mas, quando a loja surgiu, não havia nada parecido na região. "Vendia um design acessível e passei a receber arquitetos famosos da capital, como João Armentano." O sucesso foi tamanho que a loja veio para os Jardins. E lá continua, oferecendo peças de R$ 40 a R$ 40 mil.

Agora, Houssein anda rondando a Rua Conselheiro Carrão, no centro, em busca de um casarão. "Quero montar um espaço para as minhas festas", conta. Uma iniciativa pressionada pelos vizinhos, cansados das reuniões do empresário, que vão até 10 da manhã. "Adoro São Paulo", diz. "Meus melhores amigos são judeus. Isso não aconteceria em outra cidade do mundo."

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