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Humanos inocentados por fezes fossilizadas

Nas Ilhas Baleáricas, vivia feliz um cabrito montanhês. Faz 4.500 anos, na época que os seres humanos chegaram à ilha, o cabrito se extinguiu. Os cientistas acreditavam que nossos antepassados, predadores vorazes, haviam caçado o cabrito até a extinção. A novidade é que, agora, nossa espécie foi inocentada desse crime ecológico que ocorreu 2.500 anos antes do nascimento de Cristo. A análise de fezes fossilizadas demonstrou que não somos os culpados.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2013 | 02h06

A cena do crime

As Ilhas Baleáricas são um pequeno arquipélago localizado no Mar Mediterrâneo, distante 200 km da costa da Espanha. As três ilhas maiores, Maiorca, Menorca e Ibiza, surgiram quando esse pedaço de terra se separou da costa da Espanha, 4,5 milhões de anos atrás, muito antes do surgimento dos seres humanos na África. Durante grande parte dos 4,5 milhões de anos, a flora e a fauna dessas ilhas evoluíram de maneira independente. Um ancestral das modernas cabras e ovelhas evoluiu de maneira independente no continente e nas ilhas. No continente surgiram os diversos tipos de cabras e ovelhas que conhecemos hoje, e, na ilha, esses mesmos ancestrais se transformaram, ao longo de milênios, em um pequeno cabrito montanhês chamado Myotragus balearicus, muito diferente dos cabritos modernos.

A vítima

A análise dos fósseis de Myotragus demonstra que o animal era pequeno, com meio metro de altura, tinha pernas curtas e os olhos localizados na frente do crânio, e não na parte lateral, como ocorre com os cabritos modernos. Esses dados, e o fato de que nunca foram encontrados fósseis de felinos ou outros predadores na ilha, sugerem que esse cabrito era o único mamífero de grande porte que sobreviveu na ilha. Sem predadores, o animal não necessitava de pernas poderosas para correr ou olhos laterais capazes de identificar o inimigo. Assim, ao longo de milhões de anos, foi diminuindo, se tornando lento e provavelmente muito calmo. Mas a vida não era uma festa mediterrânea. O Myotragus tinha de viver da escassa vegetação que existe na ilha, composta por um número muito menor de espécies, e ainda sobreviver aos longos períodos de seca. O Myotragus viveu bem durante mais de 4 milhões de anos, mas os fósseis mais recentes desta espécie são de 4 mil a 6 mil anos atrás. Os cientistas acreditam que a espécie se extinguiu por esta época. Ninguém se preocupou em descobrir as causas de sua extinção.

O crime

Tudo mudou quando os cientistas começaram a estudar os fósseis de seres humanos encontrados em Maiorca. Eles descobriram que os seres humanos só chegaram na ilha muito recentemente, por volta de 4.500 anos atrás. Essa descoberta levou os cientistas a imaginarem que ao chegarem à ilha os seres humanos encontraram uma presa fácil, um cabrito que mal corria, não tinha medo de predadores e devia ter uma carne deliciosa. Daí a concluir que nossos ancestrais haviam exterminado os cabritos foi um pulo.

O inquérito

Recentemente, foram encontrados em Maiorca diversos coprólitos (fezes fossilizadas). O DNA presente nos coprólitos foi extraído, sequenciado e comparado com o DNA extraído de ossos fossilizados do Myotragus. Como as sequências eram idênticas, foi concluído que os coprólitos eram fezes de nosso simpático cabrito. Em seguida, por meio da análise de carbono 14, os cientistas descobriram a data em que as fezes haviam sido produzidas. Elas haviam sido produzidas por volta de 5.000 anos atrás, aproximadamente na época em que os seres humanos haviam chegado à ilha. O passo seguinte foi determinar a dieta dos Myotragus a partir do conteúdo das fezes. Isso é feito analisando no microscópio os esporos de planta encontrados nas fezes e comparando com os esporos fósseis ou esporos modernos.

A forma e o tamanho dos esporos permite saber que espécies de plantas os animais comiam. A grande surpresa foi a descoberta de que os cabritos se alimentavam sobretudo de uma única espécie de planta e que os esporos de outras plantas estavam praticamente ausentes nas fezes. O problema ficou mais interessante quando os cientistas descobriram que esta espécie de planta não existia mais na ilha. E aí foram investigar quando e por que essa espécie de planta havia se extinguido.

Analisando os dados climáticos da região os cientistas descobriram que a planta despareceu de diversas ilhas no Mediterrâneo por volta de 5.000 anos atrás por causa de uma mudança climática na região. Mas então teriam sido mesmo os seres humanos os responsáveis pela extinção do cabrito? Ou a causa seria a extinção desta planta que era o principal alimento dos cabritos? Seriam os nossos ancestrais inocentes?

A absolvição

Mas como saber se nossos ancestrais eram realmente inocentes? Eles chegaram à ilha na mesma época em que os cabritos se extinguiram e na época em que o alimento dos cabritos também desapareceu. Seria pura coincidência? Mas, se nossos ancestrais tivessem feito churrasco de toda a população de cabritos, os ossos de cabritos deveriam estar presentes nas cavernas habitadas pelos primeiros seres humanos, assim como os ossos de mamute e outros mamíferos caçados pelos seres humanos na Europa continental são encontrados nas cavernas e acampamentos pré-históricos. Mas o fato é que em nenhuma escavação em que foram encontrados fósseis humanos foram encontrados ossos de Myotragus. Tudo indica que nossos ancestrais não chegaram a saborear churrasco desses cabritos. Muito provavelmente somos inocentes. O Myotragus provavelmente se extinguiu logo antes da chegada dos seres humanos e a causa de sua extinção provavelmente foi uma mudança climática que eliminou seu alimento preferido.

Como nos filmes policiais, não basta a vítima e o acusado estarem no mesmo local, na mesma hora, para concluir que o acusado é o assassino. Desse crime parece que estamos livres, mas isso não quer dizer que não somos culpados de inúmeros outros extermínios, tanto no passado quanto no presente.

*É biólogo  

 

Mais informações: Analysis of Coprolites From the Extinct Mountain Goat Myotragus Balearicus. Quart. Res. J. Yqres.2013.10.006 2013

 

E-mail: fernando@reinach.com

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