Hotel vira primeira moradia popular no centro após 4 anos

Comprado por Kassab, Edifício Cineasta está na fase final de obra e ficará pronto em dezembro; prédio vai abrigar artistas idosos

ADRIANA FERRAZ, O Estado de S.Paulo

21 Setembro 2014 | 02h00

Após um intervalo de quatro anos, a Prefeitura de São Paulo vai destinar um prédio na centro à moradia popular. Está prevista para dezembro a entrega da reforma do Edifício Cineasta, no cruzamento mais famoso da capital - Avenida Ipiranga com a São João. Os futuros moradores serão artistas idosos, que hoje recebem até três salários mínimos de renda por mês.

Prometida para 2012, a obra no antigo hotel, apesar de atrasada, marca a retomada de um projeto capaz de revitalizar o centro e, ao mesmo tempo, reduzir o déficit habitacional da cidade. A política é uma das principais demandas dos movimentos que lutam por mais oferta de habitação social. Na terça-feira, a desocupação pela Polícia Militar de um prédio invadido por sem-teto ao lado do Cineasta terminou em confronto e deu início a uma série de protestos por moradia.

Os custos da compra e da reforma do prédio, que agora é chamado de Recanto dos Artistas, são estimados em R$ 6,7 milhões. Os quartos do antigo hotel, erguido nos anos de 1920, foram divididos e transformados em 50 unidades de até 45 metros quadrados de área útil.

A reportagem do Estado visitou o interior do prédio na quinta-feira, dois dias após o cumprimento de reintegração de posse no edifício vizinho. O resultado, ainda preliminar, já revela o que um programa de restauro bem executado pode promover na região - tombada, a fachada, por exemplo, será entregue totalmente restaurada.

O Cineasta faz parte do programa Renova Centro, lançado em 2010 pelo então prefeito Gilberto Kassab (PSD) e assumido pela atual administração. Na época, foi anunciado que a Prefeitura desapropriaria um total de 53 edifícios no centro. Depois de reformados, todos seriam destinados a famílias de baixa renda, por meio de moradia social ou de mercado popular - para quem tem renda mensal de até 6 salários.

O balanço do projeto, no entanto, mostra que pouco saiu do papel. Da lista dos prédios previstos, que depois subiu para 60, o Cineasta é o que tem as obras mais avançadas. No ano que vem, outros dois edifícios comprados por Kassab devem ter a transformação concluída pelo Município.

Procurada, a gestão Kassab citou parcerias firmadas com a iniciativa privada para aumentar a conta de obras finalizadas. Mas os três prédios entregues por meio do programa "imobiliária social" são classificados como Habitação de Mercado Popular (HMP), o que não contempla a fila oficial por moradia na cidade. Atualmente, 1 milhão de pessoas estão à espera no cadastro da Companhia de Habitação de São Paulo (Cohab). Desse total, 130 mil estão habilitadas para participar dos programas municipais.

Complexo. As dificuldades em fazer cumprir as promessas não são privilégio de um só governo. No início dos anos 2000, ainda na gestão da prefeita Marta Suplicy (PT), a meta era entregar 55 mil moradias novas ou reformadas para ajudar a revitalizar o centro. Ao fim do governo, seis prédios haviam sido entregues reformados.

"O processo é realmente demorado e bastante complexo, mas depende é de vontade política", diz o urbanista e vereador Nabil Bonduki (PT), que participou, durante a gestão Marta, do projeto de requalificação da área central. Entre as dificuldades estão questões estruturais. "Não é fácil, por exemplo, transformar uma construção comercial em um prédio residencial. De acordo com o projeto, é preciso refazer toda a parte hidráulica e elétrica. Em muitos casos, fica mais barato demolir a construção e fazer uma nova."

A atual gestão Fernando Haddad (PT) também tem metas ousadas na área. Segundo a Secretaria de Habitação, além dos três prédios em obras assumidos da gestão passada, há três com a posse garantida e mais três em processo de depósito em juízo. Em nota, a pasta ainda informou que entrou com ação na Justiça para desapropriar outros 35 edifícios subutilizados no centro - grande parte está ocupada atualmente. Em um ano e meio, porém, nenhuma reforma foi iniciada na região.

O alto custo explica a demora na conclusão dos projetos. Segundo a Prefeitura, os processos de desapropriação e reforma desses edifícios elevam o preço de uma unidade habitacional para, em média, R$ 200 mil. O valor representa o dobro de um empreendimento financiado pelo Programa Minha Casa Minha Vida.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.