Werther Santana/AE
Werther Santana/AE

Hotel abandonado será lar de artistas

Prefeito assina desapropriação do Cineasta e quer entregar apartamentos até 2012; ação no centro é vista com ressalvas por especialista

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2011 | 00h00

Dos 53 prédios destinados ao Renova Centro, programa de habitação popular e requalificação que pretende trazer 2,5 mil famílias para morar naquela região, somente 3 começam a ganhar destinação social. Os primeiros beneficiados serão artistas aposentados, idosos e pessoas carentes.

Ontem, o prefeito Gilberto Kassab (PSD) assinou a escritura de desapropriação do Edifício Cineasta, antigo hotel abandonado na Avenida São João. O custo foi de R$ 4,2 milhões - 1% de todo o valor previsto para o Renova Centro. Será o primeiro prédio a ser reformado, para artistas que recebem hoje de 1 a 3 salários mínimos. Falta ainda a licitação para o início das obras de reforma interior e da fachada, tombada pelo patrimônio histórico. O edifício passará a ser chamado de Recanto dos Artistas. Após a reforma, terá 59 apartamentos de aproximadamente 50m² e um dormitório.

Mais dois edifícios foram desapropriados e estão em fase de licitação para reforma e adequação à moradia popular. Outros 20 são classificados como "em estágio avançado de desapropriação", o que significa que os proprietários já aceitaram o valor proposto pela Prefeitura. "A promessa é entregar as primeiras unidades até 2012. As aprovações e toda a desapropriação devem ser feitas no menor prazo possível", disse o secretário de Habitação e presidente da Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (Cohab), Ricardo Pereira Leite.

Segundo Leite, como os prédios são das décadas de 1940 e 1950, muitos não têm plantas ou a documentação não condiz com o estado atual da construção, o que dificulta os estudos de desapropriação. Há análises do Corpo de Bombeiros e do Departamento do Patrimônio Histórico. "São vários obstáculos a serem vencidos. As leis de segurança da época não exigiam o que se exige hoje. Nem sempre conseguimos adaptar. Para fazer direito dá trabalho."

Próximos passos. O prédio Mário de Andrade, na Rua Asdrúbal do Nascimento, receberá famílias carentes. E o Santo André, na Avenida Celso Garcia, será moradia de idosos. Juntos, os três prédios oferecem cerca de 150 apartamentos. Os moradores serão incluídos no programa de locação social da Prefeitura, que administrará os condomínios. Dessa forma, os inquilinos comprometerão em torno de 25% do salário com o aluguel.

Há ainda a possibilidade de alguns apartamentos passarem a integrar o programa Minha Casa, Minha Vida, da Caixa Econômica Federal. Neste caso, o trabalhador poderá usar o FGTS para financiar a compra, a um custo de cerca de R$ 100 mil. "A gente pretende ter no mesmo prédio unidades alugadas para um tipo de população e unidades vendidas para quem possa comprar", disse Leite.

"O maior beneficiário vai ser aquele cidadão humilde que precisa da sua casa e até então não teve concretizado esse sonho que é de todo ser humano", disse, em discurso, Kassab. "São Paulo não tinha uma casa para acolher esses artistas. O prefeito cumpre uma promessa de campanha", comemorou o ator Odilon Wagner, presidente da Associação dos Produtores Teatrais Independentes de São Paulo.

Crítico. Para o professor Issao Minani, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), atrair moradores de baixa renda para o centro é questionável. "Acho muito difícil você fazer uma revitalização de um conjunto de edifícios sem que isso seja precedido da criação de empregos e renda na região." /COLABOROU ELVIS PEREIRA

PARA LEMBRAR

Clientes eram funcionários de empresas

A porta de vidro de entrada do Cineasta ainda ostenta o adesivo com o símbolo do hotel. Mas nenhum hóspede entra há cerca de dez anos. O acesso é bloqueado por grades, fechadas com cadeado. O prédio foi construído na década de 20 do século passado. Em entrevista ao Estado em maio de 1996, o então dono do hotel, o português Florival Manuel Francisco, contou que mais 80% dos clientes eram funcionários de empresas. Sacoleiros e casais suspeitos eram impedidos de se hospedar.

As diárias eram de um hotel duas-estrelas: em torno de R$ 300. As 20 suítes, mais espaçosas, contavam com camas de casal, banheira, ar-condicionado, frigobar e televisão. Os demais quartos, 60, diferiam por terem mais camas. O prédio contava com um jardim de inverno e uma sala de estar.

Apesar do fechamento, tudo continua ali: poltronas, camas de madeira, carpete. A diferença, atualmente, é a camada de poeira sobre a mobília e os dois elevadores parados, com a placa de manutenção. A proteção cabe a dois seguranças, mantidos ininterruptamente no local. A principal missão deles é evitar ações de invasores.

Na frente do prédio não há moradores de rua nem consumidores de droga. Quando tentam se acomodar ali, são espantados pelos seguranças.

Funcionário da banca de jornal situada a poucos metros do prédio, Fernando Jorge Pereira, de 26 anos, define como positiva a proposta de revitalização do prédio. "A movimentação de pessoas deverá trazer mais segurança para essa área. Fica sinistro do jeito que está hoje."

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