Luciano Bottini Filho/Estadão
Luciano Bottini Filho/Estadão

Hotéis separam moradores 'da paz'

'Encrenqueiros' também têm quartos gratuitos

Luciano Bottini Filho, O Estado de S.Paulo

15 Janeiro 2014 | 02h04

SÃO PAULO - Na ocupação da Cracolândia, a palavra que separa os bons vizinhos dos maus é "paz". Ela foi escrita nos barracos em amarelo e letras garrafais pelo próprios líderes da comunidade para não misturar "encrenqueiros" com "gente de bem" na distribuição dos quartos entre os quatro hotéis sociais oferecidos pela Prefeitura na região da Rua Helvetia, no centro da capital.

A regra geral é solteiros, casais e famílias em alas separadas. Mas, entre eles, a divisão é muito mais sutil. No Hotel do Cícero, na esquina da Helvetia com a Dino Bueno, fica "a linha de frente", aqueles que exercem mais influência no grupo.

Um desses líderes tem família na zona leste de São Paulo e uma casa alugada. Dependente de drogas desde os 12 anos, G. V., de 38, saiu da prisão em julho e ficou com a mulher até o fim do ano passado. "Aqui só estão as pessoas capacitadas para manter uma ordem nesse caos. Os barracos que dão problema, que brigam, puxam faca, não vão estar por aqui."

O local lembra uma pensão antiga, com uma ampla sala comunitária, suítes espalhadas por uma rede de corredores e varandas internas.

G. V. conta que decidiu entrar na fila por quarto há uma semana. "Fiquei sabendo do projeto e decidi ficar. Sempre usei drogas. Quis vir para cá porque é difícil as pessoas aceitarem."

Ex-presidiário, ele perdeu o emprego no mês passado e vai dividir o quarto com um colega que chegou há 40 dias na Cracolândia.

Outra moradora de rua recém-chegada à Rua Helvetia é J. S., de 17 anos. Saiu de casa para viver com um homem de 28, do qual espera um filho. Sua gestação é de risco, já que engravidou três meses depois de ter um aborto quando estava em um outro relacionamento "sem compromisso".

Sua mãe mora em um edifício invadido perto do Teatro Municipal, depois que a família deixou de receber o bolsa aluguel ao completar um ano e sete meses de benefício. "Dormi um dia aqui com ele (companheiro), dormi no outro, acabei morando", diz ela, que saiu recentemente da Fundação Casa e parou os estudos no primeiro ano do ensino médio.

Assim como os outros moradores, J.S. se diz entusiasmada com a oportunidade. "Estão todos felizes", diz Rosana Lopes, uma das líderes comunitárias que coordenaram a negociação com a Prefeitura. Entre eles, no entanto, ainda ninguém sabe ao certo quanto tempo a ajuda vai durar. "Até a Copa", aposta G.V., cético.

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