Hotéis escondem até abrigo antibomba

Em São Paulo, não faltam endereços cheios de histórias (curiosas) para contar aos hóspedes

EDISON VEIGA, O Estado de S.Paulo

17 Abril 2012 | 03h05

Mais do que hóspedes, em corredores, halls e quartos de alguns hotéis paulistanos repousa um pouco de história. Há tapeçarias exclusivas, quadros raros e até um abrigo antibombas.

Um exemplo é o L'Hotel Porto Bay, perto da Avenida Paulista, na região central. O empreendimento, do grupo português Porto Bay, tem em sua decoração peças raras dos séculos 16, 17 e 18, adquiridas em leilões.

Na recepção, hóspedes se deparam com um belo relógio tipo cartel, feito à mão pelos joalheiros da corte do rei francês Luís XVI, no século 18. "Somos um hotel de estilo europeu e isso está presente na decoração", afirma o gerente-geral, Jorge Castelo. "E não há réplicas."

Entre as peças originais, destaca-se uma grande tapeçaria flamenca no alto das escadarias. Tecida em lã e seda no século 16 em Bruxelas, ela mede 3,73 metros por 5,02 m e representa os romanos Marco Antonio e Octavio quando foram apresentados à rainha egípcia Cleópatra. A peça foi arrematada em leilão de Londres e é a única de um conjunto de sete tapeçarias - uma é do Palácio Nacional de Sintra, em Portugal, e as outras pertencem à coleção real espanhola.

O hotel tem outras raridades. Há barômetro e termômetro provençais franceses de 1767, cômoda com tampo de mármore, console de encosto dourado, um par de poltronas de tecido damasco vinho e um espelho veneziano do século 18.

Ao observar que muitos clientes se detinham atentamente para analisar as peças, como se estivessem em um museu, a administração do hotel decidiu, há dois anos, colocar plaquinhas informando a história e a origem de cada item. "Possibilitamos que os hóspedes mergulhem nesse ambiente", diz o gerente-geral.

Bunker. Entre o Largo do Arouche e a Praça da República, também no centro, o Hotel Bourbon São Paulo Business tem até um abrigo antiaéreo - transformado em academia. Quando o prédio foi erguido, na década de 1950, decidiu-se pela construção do bunker porque a proprietária, a condessa italiana Leonor de Camilis Spezzacalena, ainda andava impressionada com os bombardeios sofridos na Segunda Guerra Mundial por seu país natal - apesar de o conflito ter terminado em 1945.

Leonor exigiu o abrigo para o caso de eventuais - embora improváveis - ataques. Em 1982, com o prédio já comprado pelo empresário Alceu Vezzozzo, ali se instalou o hotel. "É uma história que os hóspedes, em geral, nem imaginam", diz o gerente-geral, Carlos Dell'Aglio.

O espaço antibombas ficou sem uso até o início da década de 1990, quando se tornou um piano-bar. Há seis anos, deu lugar a uma academia. Um detalhe acabou preservado: uma tampa de um porão, que, segundo os mais antigos, era uma rota de fuga com saída para a Praça da República e atualmente está inacessível.

O Esplanada, inaugurado em 1923 como o mais elegante hotel de São Paulo, ficava na Praça Ramos de Azevedo, pertinho do Teatro Municipal, e também tinha seu túnel. Hospedavam-se ali artistas que se apresentavam no teatro. Para evitar o assédio do público, eles usavam a passagem subterrânea até o porão do Municipal. Desde os anos 1960, o prédio abriga a sede da Votorantim. O túnel foi fechado.

Requintado. Outro classudo hotel que guardava importantes relíquias artísticas era o Ca'd'Oro, na Rua Augusta, região central. Aberto em 1956 e hoje fechado para reformas, o local ostentava pinturas como a Vendemmia, do italiano Vincenzo Irolli, e um piano Erard fabricado na França em 1850. As obras de arte foram compradas por indicação do fundador do Museu de Arte de São Paulo (Masp), Pietro Maria Bardi. E ali, além da história, a etiqueta também era preservada. Até 1962 era proibida, no restaurante do Ca'd'Oro, a entrada de homens sem gravata. A regra foi abrandada - bastava paletó. A administração mantinha alguns, para emprestar aos desavisados.

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