Hospital cria visita virtual para pai que doa órgão ao filho

Após cirurgia, doador pode acompanhar por meio de um tablet o estado de saúde do receptor - e vice-versa

Clarissa Thomé / Rio, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2013 | 10h39

A ansiedade de um pai, que queria ver o filho depois de doar para ele um rim, mudou a rotina do pós-operatório do transplante renal no Hospital da Criança, instituição do governo do Estado, na zona norte do Rio.

Além dos cuidados para monitorar os pacientes, os médicos também preparam dois tablets. E é pela tela de dez polegadas desses equipamentos que pais doadores se certificam que os filhos receptores estão bem após a cirurgia - e vice-versa.

O que foi um improviso para aplacar um pai mais ansioso virou o programa Visita Virtual. E seus efeitos serão estudados pelos médicos do Hospital da Criança. "A ansiedade do adulto interfere na pressão arterial, nos efeitos da analgesia. O paciente fica mais agitado, tem dificuldade para dormir. O fato de poder ver o filho, falar, mesmo que virtualmente, traz tranquilidade", afirma o coordenador de qualidade do hospital, Lucio Miranda de Abreu. As crianças também reagem bem. "Elas se sentem seguras, acolhidas. Sabem que o pai, que também ia enfrentar a cirurgia, está bem e que está próximo."

A Visita Virtual começou no mês passado, quando Martin Gabriel, de 12 anos, recebeu um rim do pai, o administrador argentino Elio Felix Capeletti, de 53 anos. "Enquanto dávamos as explicações sobre o procedimento, ele perguntava o tempo todo quando poderia andar. Achávamos que estava preocupado com suas atividades, até que ele quis saber quando poderia visitar o filho. Aí entendemos sua real preocupação."

Depois do transplante renal, doador e receptor ficam internados em UTI em andares diferentes. O doador leva três dias para poder se locomover. Era tempo demais para Capeletti.

Martin é portador da Síndrome de Fanconi, que tem como consequência a eliminação de quantidades excessivas na urina de glicose, ácido úrico, potássio e outras substâncias. Há três anos, os rins perderam sua função de filtrar o sangue. O menino passava por diálise peritoneal desde então.

"Depois de tudo isso, tudo o que eu queria era saber que o meu filho estava bem depois da cirurgia. Quando eu o vi pelo tablet, fazia 30 horas que estávamos longe um do outro. Conversamos, ele me deu tchau, jogou beijo. Coisas simples, mas que numa hora dessas têm muito valor", diz Capeletti. "Meu filho fez aniversário dia 29 de julho. Meu rim foi o presente para ele. Depois de tanto tempo, meu filho está tendo uma vida normal de criança."

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