Hospitais 'vips' atendem 1,8 mil do SUS na capital

Lista inclui Einstein, Sírio, Beneficência e Oswaldo Cruz. Somados, 'pacientes públicos' ocupariam mais de 80% dos 2,2 mil leitos do HC

CARINA BACELAR, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2013 | 02h05

Ela não esquece da hora exata em que entrou com a filha pela primeira vez no Hospital Sírio-Libanês, na região da Avenida Paulista, em São Paulo. Era 3 de dezembro de 2012, 5h15. Isabelly Cristina da Silva, de 16 anos, tinha acabado de ser "promovida" a paciente de um dos centros de medicina mais vips do Brasil. A mãe, Sandra da Silva, de 36, estava lá, acompanhando a luta da jovem por um transplante de coração. Assim como ela, outras 1,8 mil pessoas são tratadas hoje por hospitais privados que mantêm convênio com a rede pública na capital.

A ansiedade era tanta que Sandra acompanhava os minutos no relógio. Com insuficiência cardíaca, Isabelly estava debilitada: pesava 26 kg, distribuídos em 1,40 m de altura. Há quase um ano, iniciou o projeto Coração Novo, desenvolvido pela equipe do cardiologista Roberto Kalil Filho, médico da presidente Dilma Rousseff (PT). Hoje, já transplantada, ela ainda é acompanhada pela equipe da unidade, sem restrições.

Criado para dar suporte a pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) que precisam de um transplante de coração, o projeto do Sírio compõe uma rede de solidariedade formada por hospitais de ponta. A lista inclui Albert Einstein, Beneficência Portuguesa e Oswaldo Cruz. Somadas, as pessoas tratadas por eles ocupariam mais de 80% dos 2,2 mil leitos do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Para a dona de casa Sandra da Silva, de Juiz de Fora (MG), o tratamento oferecido à filha Isabelly e a outros 39 pacientes é de "hotel cinco estrelas". Além do programa para doenças cardíacas, o Sírio mantém a Escola de Transplantes, que atende o SUS desde 2009. "Na rede pública há menos investimentos. A medicina hoje demanda tecnologia", destaca Roberto Kalil.

Isenção. O Hospital Albert Einstein mantém programas semelhantes, que ocupam cerca de 900 leitos das unidades da rede, o que corresponde a 33% do total de vagas, segundo o presidente Claudio Lottenberg. Por ser enquadrado na categoria filantrópica, o atendimento para pacientes do SUS rende isenções fiscais aos hospitais. Por ano, são cerca de R$ 50 milhões abatidos apenas das contas do Einstein.

A mineira Keila Pereira Silva, de 31 anos, é uma das beneficiadas pelo projeto do hospital. Ela se mudou de Prata, também em Minas, para São Paulo para aguardar um transplante de fígado, realizado há cerca de 20 dias, depois de 4 anos de espera. Para ela, a aparelhagem e o conforto fizeram a diferença, mas o apoio psicológico recebido foi mais decisivo.

"Cheguei a ouvir de um médico que teria apenas seis meses de vida. Muitos deles me desenganavam", disse. No Einstein, era estimulada a continuar vaidosa e tinha à disposição até serviços de cabeleireiro e manicure. Na rede pública, por outro lado, acredita que há um estímulo ao desleixo. Se tivesse de pagar, o tratamento de Keila custaria R$ 250 mil.

Os Hospitais Beneficência Portuguesa e Oswaldo Cruz também mantêm programas de assistência a egressos da rede pública. Juntos, oferecem 880 vagas. De acordo com Fábio Tadeu Teixeira, superintendente do Beneficência Portuguesa, 60% dos atendimentos do hospital são destinados ao SUS.

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