Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Hospedaria 'renasce' para acolher imigrantes em SP

Abrigo histórico no Brás volta às origens 36 anos após encerramento das atividades

Marina Azaredo, O Estado de S. Paulo

26 Abril 2014 | 16h13

SÃO PAULO - Um dos maiores centros de recepção de estrangeiros já existentes no Brasil, a Hospedaria de Imigrantes do Brás recebeu mais de 2 milhões de pessoas entre 1887 e 1978. Agora, 36 anos após o encerramento de suas atividades, o antigo prédio está novamente funcionando como abrigo para estrangeiros recém-chegados a São Paulo.

Após os fim das atividades da Hospedaria, uma parte do edifício passou a abrigar o Arsenal da Esperança, um centro de acolhida para adultos em situação de rua, inaugurado em 1966. Outra porção do prédio abriga o Museu da Imigração do Estado de São Paulo. Hoje, dos 1,2 mil homens que vivem no Arsenal, 179 são estrangeiros, em grande parte da África e do Haiti.

Um dos 12 haitianos no local, Lesly Noel, de 29 anos, chegou há pouco mais de dois meses. Assim como as centenas de conterrâneos que vieram para São Paulo nas últimas semanas, ele fugiu do desemprego e da crise que assola o país após o terremoto de 2010.

“Trabalhei três anos como eletricista. De repente, não consegui mais emprego.” O sonho era ir para os Estados Unidos, mas não conseguiu e o destino acabou sendo São Paulo. “Encontrei pessoas muito acolhedoras aqui, mas já percebi que também existe muito preconceito.” Noel chegou ao Arsenal após uma passagem pela Casa do Migrante, outro ponto de acolhida para imigrantes. “Agora, meu sonho é estudar e trabalhar aqui. Na vida, a pessoa tem de ser otimista”, afirma.

Na última quinta-feira, ele aguardava a resposta de uma entrevista para trabalhar em uma empresa de alumínio em Santana, na zona norte.

“Esse é um fenômeno muito novo. O Brasil oferece possibilidades econômicas que antes não oferecia. Deixamos de ser apenas um ponto de parada para ser o destino final”, aponta o missionário italiano Simone Bernardi, que há nove anos trabalha no Arsenal e viu o aumento no número de estrangeiros na casa. “De um ano e meio para cá, aumentou muito o número de africanos”, diz.

Ousmane Sidibe, de 27 anos, fugiu do conflito armado que assola a República do Mali, país da África Ocidental. Empregado na construção civil, ganha cerca de R$ 1 mil por mês, e parte do dinheiro vai diretamente para a família no Mali. “O mais difícil é conseguir a documentação para ficar regular. Mas, pelo menos aqui no Brasil, todo mundo é bom. Meu sonho é viver para ver a paz”, afirma.

Regularização. Segundo Paulo Illes, coordenador de Políticas para Migrantes da Prefeitura, o Registro Nacional de Estrangeiros pode demorar até dois anos para chegar. Por isso, o Executivo municipal assinou recentemente um convênio com o Banco do Brasil para permitir que os imigrantes consigam abrir uma conta sem o documento.

“Certamente, tivemos uma mudança no perfil do imigrante. Há dez anos, eram muito mais latinos.” Hoje, a Prefeitura acolhe em seus centros um total de 322 imigrantes, e os maiores grupos são de Guiné Bissau (58) e do Mali (53). “Os latinos já têm uma comunidade mais estruturada e não precisam de tanto apoio”, acredita Illes.

O Censo Demográfico de 2010 registrou 286.468 imigrantes que viviam no Brasil há pelo menos cinco anos. O número foi 86,7% maior do que o encontrado pelo Censo Demográfico de 2000, quando foram registrados 143.644 estrangeiros na mesma situação. Para o professor do Departamento de Antropologia da PUC-SP Acacio Almeida, o aumento não se deve apenas à “fuga da pobreza”, mas a uma “busca por oportunidades”. “Nos últimos anos, muito se falou do Brasil, e a Copa do Mundo é um dos motivos”, aponta.

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