Homofobia: 88% mais queixas na web

Aumento no nº de denúncias neste ano contrasta com redução nas reclamações referentes a outros abusos, como xenofobia e racismo

Márcio Pinho, O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2010 | 00h00

As denúncias de conteúdo homofóbico na internet renderam 4.983 queixas nos primeiros nove meses de 2010, 88% a mais do que no mesmo período de 2009. O crescimento foi na contramão dos vários outros tipos de denúncia de abuso na internet, como racismo e intolerância religiosa, que diminuíram. Os dados são da ONG SaferNet.

Veja também:

linkPaulista tem mais 25 policiais entre 0h e 6h

linkAcusados de agressão podem ser julgados até o Natal

linkRegião central concentra ataques homofóbicos

Os casos de homofobia ultrapassaram os de xenofobia, que acontecem com naturalidade nas redes sociais - como os recentes comentários de uma estudante de Direito de São Paulo pedindo o afogamento de nordestinos. Para se ter ideia, as denúncias de racismo caíram 57% no período, enquanto as reclamações de neonazismo, 65%.

A última manifestação virtual de grande vulto foi logo após os ataques a jovens na Avenida Paulista após uma suposta paquera. A polêmica "Homofobia sim!" contra "Homofobia não!" tomou conta do Twitter.

O conteúdo homofóbico é comum também no Orkut. É onde estão 93% das denúncias registradas pela SaferNet em 2010. Entre as comunidades que já apareceram nesse site de relacionamentos estão "Odeio Travecos", que chegou a ter cem participantes, "Matem os Travecos" e "Eu Odeio Gays". Nelas, as ofensas são variadas e há tópicos de discussão sobre como e onde matar homossexuais.

 

Orkut. Segundo Thiago Tavares, da SaferNet, o número de internautas no Brasil saltou de 30 milhões para 73 milhões em quatro anos. E isso não foi acompanhado de uma política de direitos humanos na internet que vigiasse e punisse essas manifestações. A homofobia ainda não é considerada crime e um projeto de lei que tramita no Congresso tenta mudar esse quadro. Já o Grupo de Combate a Crimes Cibernéticos do Ministério Público Federal se concentra nos temas de pornografia infantil e crimes de racismo, considerados federais - o Brasil é signatário de acordos internacionais sobre ambos.

Tavares afirma que 5.025 páginas de homofobia foram removidas entre 2006 e 2010 pelo trabalho da SaferNet. Dessas, 4.492 eram perfis e comunidades homofóbicas do Orkut. A ONG mantém essa interlocução com os provedores para facilitar a retirada do conteúdo. O Google diz prezar pela liberdade de expressão na rede e que não é responsável pelo conteúdo publicado no site de relacionamentos Orkut.

Esconderijo. Para o presidente da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo, Ideraldo Beltrame, o avanço da homofobia na internet é uma reação aos avanços dos últimos tempos e aos debates que acontecem em torno do projeto de lei que criminaliza a homofobia no País. O tema já recebeu extenso apoio público e foi bastante debatido durante as últimas eleições.

Ele afirma que sob o anonimato da internet escondem-se pessoas homofóbicas que teriam dificuldade de trazer isso a público de outra forma, mas também grupos organizados que pregam a homofobia.

A presidente do Comitê de Estudos sobre Diversidade Sexual e Combate à Homofobia da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Adriana Galvão Moura, também pede maior controle sobre o conteúdo divulgado na internet. Ela afirma que o alcance da rede tem a capacidade de amplificar uma mensagem homofóbica. "O comentário feito por uma pessoa tem um alcance enorme, às vezes maior do que fora da internet. Isso conquista adeptos."

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.