Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Homicídios dolosos aumentam 16,6% em SP em julho

Dados da SSP apontam que assassinatos subiram de 627, em julho de 2019, para 701; esta é a quarta alta no Estado no período de sete meses

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2020 | 17h28
Atualizado 26 de agosto de 2020 | 19h05

SÃO PAULO - Com um caso registrado a cada três horas em julho, o número de assassinatos voltou a subir no Estado de São Paulo. Dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP), divulgados nesta terça-feira, 25, também apontam alta no número de boletins de ocorrência de estupro. Já as estatísticas de latrocínio, o roubo seguido de morte, e crimes patrimoniais sofreram queda.

Segundo a SSP, foram registrados 217 casos de homicídios dolosos, quando há intenção de matar, em julho. O índice representa alta de 16,6% comparado ao mesmo mês do ano passado, quando o Estado havia notificado 186 ocorrências. Já no acumulado do ano, São Paulo soma 1.677 registros até o momento -- ou 6,1% a mais do que os 1.580 assassinatos que haviam sido contabilizados no mesmo período de 2019.

Na comparação mês a mês, esta foi a quarta ocasião em que o indicador de assassinatos subiu em 2020. Os homicídios já haviam crescido em março (23,8%), abril (3,5%) e maio (5,6%), de acordo com os dados da secretaria. A última queda foi registrada em janeiro, no início do ano, de 2,6%. Em fevereiro e em junho, o indicador sofreu variações negativas de 0,9% e 0,5%, respectivamente, o que indica estabilidade.

Dados do governo paulista mostram que 52,9% das mortes aconteceram em via pública e 26%, no interior dos domicílios. Outros 21% dos casos se dividem entre locais como unidades rurais (5,4%), comércios (2,2%) e restaurantes (1,3%), entre outras localidades. A maior parte dos casos foi classificada pela secretaria como decorrente de conflitos interpessoais (38,7%) e em 19,8% dos crimes há indícios de execução. 

O professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública Rafael Alcadipani diz que o Estado passa por um momento problemático na gestão da política de segurança. "O governo precisa saber onde o crime está aumentando e quais são as causas. Há 20 anos, os homicídios estão em queda e parece perigoso que a tendência se reverta agora", afirma. 

Alcadipani diz que os efeitos da pandemia sobre os indicadores de criminalidade ainda não são claros, mas já se especula sobre a pressão sobre o crime organizado, o que pode culminar em conflitos internos, e a tendência de mais crimes interpessoais entre conhecidos por razões diversas. "Tem que haver mais investimento na Polícia Civil e na perícia para que os homicídios sejam devidamente esclarecidos. As estruturas precisam ser modernizadas", diz. 

O Estadão mostrou que, no primeiro semestre, 55 cidades paulistas com mais de 50 mil habitantes tiveram mais crimes contra a vida na comparação com o ano passado. O Índice de Exposição à Criminalidade Violenta (IECV), do Instituto Sou da Paz, constatou que os homicídios cresceram em todas as áreas, mas a alta mais intensa foi notada em cidades da Grande São Paulo. Em Itapecerica da Serra, os 19 homicídios registrados em sete meses de 2020 superam os crimes de todo o ano passado, quando houve 15 assassinatos.

Na capital paulista, o índice de homicídios ficou estável em julho e totalizou 54 registro -- um a mais do que no ano passado. O acumulado do ano, no entanto, indica aumento de 2,6% das ocorrências. Foram 391 assassinatos informados, ao todo, em 2020, ante 381 entre janeiro e julho de 2019.

O secretário executivo da Polícia Militar, coronel Alvaro Batista Camilo, disse os números preocupam, mas que há ações que estão sendo tomadas para reduzi-los. "É o crime que mais preocupa a polícia de São Paulo, mas estamos trabalhando forte para analisar a situação de cada lugar e o que está acontecendo", diz Camilo, citando operações mensais que mobilizam policiais para patrulhamento nas ruas.

Na visão do oficial, os números ainda não representam uma inversão de tendência em relação à queda anteriormente notada. Isso porque, explica, as altas não são consecutivas quando são analisadas as diferentes regiões do Estado. Ou seja, não há longos períodos de altas em uma mesma região, ainda que o dado estadual mostre crescimento. "Continuamos com a melhor taxa do Brasil e não falamos ainda em quebra de tendência", completou. 

Estupros também voltam a aumentar; crimes patrimoniais caem

Pelo segundo mês consecutivo, os registros de estupro também registram aumento em São Paulo. O Estado notificou, ao todo, 921 casos em julho. Já em 2019, 850 ocorrências haviam sido informadas à polícia -- um crescimento de 8,3%.

Do total de registros, 701 casos foram de estupro de vulnerável, ou seja, quando a vítima não tem capacidade de consentir com o ato. Comparado a julho do ano passado, com 627 notificações semelhantes, o indicador subiu 11,8%.

Na cidade de São Paulo, a estatística geral de estupro aumentou de 198 para 205 na comparação entre julho de 2019 e 2020. A alta é de 3,5%. No recorte por vítima vulnerável, foram 155 casos notificados na cidade, contra 151 no ano anterior.

Por sua vez, os casos de latrocínio no mês caíram de 16 para 14 no Estado, de acordo com a SSP. Dois desses casos aconteceram na capital paulista. Em 2019, haviam sido 3 ocorrências do tipo.

Também houve queda de crimes patrimoniais no Estado, segundo indicam as estatísticas do governo. Enquanto os roubos reduziram 20,7%, de 21.326 para 16.907 ocorrências, os furtos diminuíram 28,4%, passado de 43.402 para 31.042.

O coronel Camilo vê a queda dos crimes patrimoniais ainda associada à realidade imposta pela pandemia. "Muitos serviços ainda não estão funcionando, não temos escola, não temos comércio normal. A restrição de movimentação leva à redução desses crimes de oportunidade. E temos trabalhado muito forte na proteção dos setores que já retomaram o funcionamento." /COLABOROU MARCO ANTÔNIO CARVALHO

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