Renan Cacioli/Estadão
Renan Cacioli/Estadão

Homem que está desaparecido entrou no prédio para ajudar no salvamento, dizem testemunhas

Bombeiro diz ter chegado a conversar com vítima e afirmou que conseguiria salvá-la se tivesse mais 40 segundos

Felipe Resk, Marco Antônio Carvalho, Priscila Mengue, Renan Cacioli, O Estado de S. Paulo

01 Maio 2018 | 15h24

O homem que está desaparecido após o incêndio e desabamento do prédio no Largo do Paissandu, no centro de São Paulo, já tinha saído do local e voltou ao edifício quando o fogo já tinha começado para ajudar no salvamento de outras pessoas, segundo relato de moradores. Ele desapareceu quando era resgatado por um bombeiro. Imagens de televisão mostram que ele caiu no mesmo momento em que o prédio desabou. O homem foi identificado como Ricardo e trabalharia como carregador na área da 25 de março.

De acordo com informações do Corpo de Bombeiros, a assistência social da Prefeitura levantou a informação de que 317 pessoas de 118 famílias viviam no local. A Prefeitura estima que, desse total, 25% eram de famílias estrangeiras. O Município realizou um cadastro para identificar a quantidade de famílias, o grau de vulnerabilidade social e a necessidade de encaminhamento das famílias à rede socioassistencial da Prefeitura de São Paulo.

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A peruana Gredy Canaquiri Yume, de 50 anos, morava no local há dois anos, junto do filho de 19 anos. Ela não estava no local no momento do incêndio. "Os anjos nos ajudaram", comenta.

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Na madrugada desta quarta-feira, 1, o Edifício Paes de Almeida desabou no Largo do Paissandu, na região do Centro de São Paulo. O prédio de 24 andares não aguentou as consequências do incêndio que começou no 5º andar, que ainda não teve sua causa confirmada.  O projetado em 1961 pelo arquiteto Roger Zmekhol chegou a abrigar a sede do INSS e da Polícia Federal, mas depois disso foi ocupado por imigrantes e brasileiros em situação de rua.

Quase resgatado

O sargento Diego Pereira da Silva Santos, do Corpo de Bombeiros, subia as escadas do edifício vizinho ao que desabou, no centro de São Paulo, para avisar a todos os moradores dali que o prédio devia ser evacuado em razão do risco que o incêndio representava nas imediações. Quando estava no 15º andar, ouviu pela janela da cozinha de um dos apartamento um grito de alguém que estava pendurado no prédio em chamas. "Era um grito de socorro. Ele estava no cabo de aço do para-raio", lembrou o sargento, lotado em um quartel na Vila Mariana, na tarde desta terça.

A única pessoa dada oficialmente como desaparecida no prédio que desabou tentou se salvar ao deixar o apartamento, cuja temperatura no interior chegava aos 400° C segundo estimativas do bombeiros, para pedir por ajudar do lado de fora. Pendurou-se e esperou o resgate até a chegada do sargento Diego. O bombeiro subiu até a laje do prédio vizinho e com um machado abriu espaço para começar a operação de resgate. 

Ele gritava por socorro e pedia para ser retirado de lá. Pedi que ele confiasse em mim e seguisse os procedimentos. Ele estava estabilizado", narrou o sargento. Para o homem, moreno, de cabelo curto, entre 25 e 30 anos de idade, na estimativa do bombeiro, foram lançados dois equipamentos: uma fita tubular, branca, que ele pôs embaixo do braço, e um cinto alemão, que se assemelha a uma cadeirinha, para ele por na cintura, entre as pernas. A primeira parte já havia sido executada e a vítima estava na parte final, quando ambos notaram a movimentação. "Houve um barulho embaixo, mas em cima não dava para escutar que isso estava acontecendo, que o prédio estava indo para baixo. Pulei para trás e me protegi. A corda dele não resistiu e rompeu. Eram sete andares de concreto quente em cima dele", disse o sargento. "Mais 30 ou 40 segundos e teríamos o salvado." 

O resto da corda agora é considerada como uma guia em busca da vítima, que não teve a identidade confirmada pelas autoridades. Segundo o bombeiro, o homem não revelou se havia outras pessoas no mesmo andar que ele. "Fico chateado por não ter conseguido salvá-lo. Tentamos de tudo. Não tem como não se emocionar", disse Diego. Os procedimentos de busca e retirada dos entulhos do local podem se estender por mais de uma semana.

Após quase concretizar o salvamento, ele disse que está bastante chateado, mas tenta manter a calma. "Por baixo da farda há um ser humano", afirmou. O sargento é pai de dois filhos, Beatriz, de nove anos, e Lucas de três, e contou que ambos querem ser bombeiros. Desde o incidente, ele não pode ir para casa, mas encontrou os filhos e a esposa no trabalho depois do encerramento do seu turno.

Antes e depois do desabamento

 

 

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