Felipe Resk/Estadão
Felipe Resk/Estadão

Homem preso em cativeiro pela família é libertado em Guarulhos

Vizinhos acreditam que Armando Bezerra de Andrade tenha ficado 18 anos mantido escondido em quarto úmido de cerca de 16 m²

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

24 Outubro 2016 | 14h29
Atualizado 24 Outubro 2016 | 19h03

GUARULHOS - Quando saíram da delegacia, na última quinta-feira, 20, investigadores do 8.º Distrito Policial de Guarulhos, na Grande São Paulo, esperavam colher provas contra um ladrão que, suspeitava-se, morava na Rua Carneiro, no bairro dos Pimentas, na periferia da cidade. Ao entrar na casa de número 112, os policiais descobriram que haviam errado o endereço. No local, não havia indícios de roubo, mas de outro crime. Eles encontraram Armando Bezerra Andrade, de 36 anos, que era mantido preso pela família em um quarto dos fundos.

Segundo a Polícia Civil, o pai da vítima, o porteiro Amâncio Bezerra de Andrade, de 67 anos, foi indiciado por cárcere privado e maus-tratos. Os policiais encontraram Armando desnutrido, desidratado e com a barba por fazer (uns três dedos de altura), em um cômodo úmido e mal iluminado. O quarto, de cerca de 16 m², tinha só uma cama e um balde, e ficava sempre com porta e janela trancadas. Havia também um banheiro pequeno, com chuveiro, pia e vaso sanitário - todos em péssimas condições de higiene. Do lado de fora, o cheiro era de fezes e urina.

A polícia não sabe há quanto tempo a vítima estava no cativeiro. Vizinhos acusam a família de prender Armando por cerca de 18 anos, desde que ele deixou de ser visto na região. O pai dele nega e diz que o filho estava trancado havia quatro dias. Já os investigadores aguardam laudo do Instituto Médico Legal (IML) para determinar o período do cárcere, mas não acreditam que o crime ocorreu por tanto tempo. "Nas condições em que foi encontrado, ele estaria morto em um mês", diz o delegado Celso Marchiori, titular do 8° DP, responsável pelas investigações.

No momento do resgate, Armando apresentava transtornos mentais e não conseguia falar, segundo afirma a polícia. Ele foi levado de ambulância para o Hospital Municipal Pimentas, na região. "No início, ele evitava a luz e se escondia sempre que via alguém", diz o autônomo Everton Vieira, de 33 anos, amigo da vítima. "Agora, está um pouco melhor, mas não consegue falar ainda."

No mesmo dia, o pai da vítima se apresentou espontaneamente na delegacia. Aos policiais, ele teria afirmado que o filho havia saído de casa no fim da adolescência e só retornou na segunda passada, dia 17. Na versão de Amâncio, o filho seria usuário de drogas e teria pedido para ficar trancado no quarto. Ele também afirmou que estava alimentando Armando regularmente. "Ainda assim, é crime", afirma o delegado Marchiori. 

Segundo o delegado, Amâncio não foi preso em flagrante porque fez uma apresentação espontânea para comunicar a sua autoria do crime, então desconhecida. Marchiori também diz que não havia motivos legais para solicitar prisão preventiva à Justiça, uma vez que não via, por exemplo, risco de o suspeito fugir ou atrapalhar as investigações. Até o momento, a madrasta e o irmão da vítima, que também moravam na casa, não foram incluídos no inquérito policial.

O delegado afirma que Armando não estava acorrentado no momento do resgate, nem apresentava sinais aparentes de agressão. Na parede do quarto, no entanto, há uma argola de metal presa ao lado da cama, que poderia ser usada para amarrar a vítima.

Resgate. Os policiais encontraram a vítima por volta das 7 horas, ao cumprir um mandado de busca e apreensão. Segundo os vizinhos, Armando não era visto há anos. "A gente brincava muito na rua, de esconde-esconde, pega-pega. O pai dele sempre ia buscá-lo de cinta na mão", afirma Isaias dos Santos, de 34 anos, que se diz "amigo de infância" da vítima. 

Segundo conta, sempre que perguntavam por Armando, familiares respondiam que ele estava morando em outro lugar. Primeiro, em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo. Depois, Pernambuco e Piauí, no Nordeste. "Quando descobri que estava preso, fiquei muito revoltado", diz Santos.

No sábado, o pai, a madrasta e o irmão precisaram acionar a Polícia Militar para conseguir deixar a casa onde a vítima foi encontrada. O muro do imóvel foi pichado pelos vizinhos com "Justiça", "#TodosArmando" e "3 Safados". Os moradores da rua também arremessaram garrafas e ovos dentro da casa. "Não queríamos linchar. A gente queria era amarrar os três e prender no quarto para eles sentirem o cheiro do Armando", diz um dos vizinhos, que não quis se identificar.

Os moradores da rua acreditam que Armando chegou a ser acorrentado e, depois, era mantido no cárcere sob efeito de sedativos. "Nunca passaram contato para a gente. Telefone, Facebook, nada. Diziam que ele estava fazendo Engenharia e construindo família", diz Vieira.

Segundo amigos, Armando era um rapaz "tranquilo", "organizado" e "inteligente". Na adolescência, gostava de tocar guitarra. "Não dá para ver um colega de infância nessa situação e não fazer nada. A gente quer Justiça", diz Santos.

 

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