Homem é preso por manter mulher em cárcere privado em SP

Marido também é acusado de redução à condição análoga de escravidão e de ameaça com armas de fogo

Chico Siqueira, especial para O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2008 | 19h57

O agricultor Ary Hernandez Castijo, de 50 anos, foi preso em flagrante por manter sua companheira, a dona de casa Maria Aparecida Rosa, 36 anos, em cárcere privado durante 18 anos, no sítio onde moravam, no município de Pedranópolis, a 563 quilômetros de São Paulo. Castijo também é acusado de reduzir a companheira às condições análogas de escravidão e de ameaçá-la com armas de fogo. "A vítima nos contou que ele ameaçava matá-la caso tentasse fugir e ainda a obrigava a trabalhar no serviço pesado do sítio, como ordenhar vacas e capinar, colocando-a em constrangimento, sempre sob a vigilância dele com armas de fogo municiadas", contou a delegada Maristela Lima Dias, que elaborou flagrante e abriu inquérito para apurar o caso.Segundo a delegada, com Castijo foram apreendidos dois revólveres, uma espingarda e munições. A polícia chegou a Castijo depois de denúncias feitas por familiares da mulher, que tiveram informações de que ele estaria disposto a matar a companheira. A mãe da vítima, Adelaide de Oliveira Lima, de 66 anos, disse que desde que a filha deixou sua casa, há 18 anos, não falava com ela e com as duas netas - de 16 e 4 anos, filhas do casal - embora morasse na mesma cidade. "Ele não deixava minha filha falar comigo e ameaçava nossa família quando íamos lá", afirmou Adelaide, que depois de receber uma ligação anônima anunciando um possível assassinato da filha, tomou coragem e foi à polícia fazer a denúncia. "Nesses 18 anos nunca pude abraçar ou conversar com minha filha e minhas netas", disse Adelaide, mãe de três filhos e duas filhas. De acordo com a delegada, para evitar que a mulher saísse de casa, Castijo era quem levava as crianças à escola. "A vítima só deixava o sítio duas ou três vezes mês, quando precisava fazer compras, e mesmo assim, sempre acompanhada do agressor e ainda era obrigada a andar de cabeça baixa, sem poder olhar para os lados", contou a delegada. Segundo ela, Maria Aparecida contou que as visitas de conhecidos também eram rechaçadas por Castijo, que sempre arrumava desculpa para dispensar as pessoas e que não fugia do sítio porque temia que o companheiro cumprisse a promessa de matá-la e as filhas. A delegada disse não entender como durante tanto tempo ninguém desconfiou da situação na cidadezinha, de 1,5 mil habitantes. Por isso, agora vai ouvir mais pessoas que tiveram contato com o casal. Segundo a delegada, Maria Aparecida e as filhas, especialmente a adolescente, deverão passar por acompanhamento psicológico, conforme pedido que fez à Justiça. "Elas estão num estado lastimável. A filha nem tanto, que é adolescente e pode ter se acostumado com esse tipo de situação, mas a mãe está visivelmente abatida". Segundo a delegada, ouvida, a adolescente confirmou a história contada pela mãe. A mãe e as filha foram levadas para casa de parentes numa cidade próxima para evitar assédio da imprensa e curiosos. Defesa De acordo com a delegada Maristela Dias, ao ser preso, Castijo negou todas as acusações. "Ele disse que não impedia a companheira de sair e que não a agredia", contou a delegada. O advogado Fernando Mateus Poli, defensor de Castijo, disse que vai entrar com pedido de liberdade provisória do seu cliente, mas que não poderia negar as denúncias, porque estão sendo apuradas em segredo de Justiça por se tratar de um crime envolvendo a família. "Essas denúncias de crime de privação de liberdade são complicadas, mas precisamos de tempo antes de comentar o assunto com a imprensa", disse.

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