Homem de metal

O que Lemmy do Motörhead promete é integridade. Lemmy segura a reputação do rock'n'roll com a garganta íngreme que parece uma estrada de pedregulhos nos confins do mundo. Lemmy não canta, ele urra. Lemmy não fala, ele grunhe, como o Urtigão do desenho animado, sentado em sua poltrona com o chapéu de caubói amassado, ao lado do único ser que o suporta, o Cão. É um fora da lei clássico e sua voz inumana é a anunciação da liberdade do rock.

JOTABÊ MEDEIROS, ROBERTO , NASCIMENTO ENVIADOS / RIO, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2011 | 03h02

A integridade de Lemmy (codinome do cidadão britânico Ian Fraser Kilmister, frontman de notáveis 66 anos), é uma das imagens que ficam desse primeiro fim de semana do Rock in Rio. Integridade que não tem nada a ver com caretice, é feita de sinceridade e honestidade - alguém tem de dizer a verdade, e Lemmy é a mais ruidosa manifestação dessa verdade. Lemmy é o avesso do bom-mocismo, mas também não é um aval do banditismo - ele é cavalheiresco, embora rude. O que Lemmy anda por aí berrando é um estilo de vida - que tem um componente de rock macho, de caminhoneiro, obviamente.

Curioso que o show do Motörhead do baixista e vocalista Lemmy tenha vindo antes de Slipknot e do Metallica. Não existiria o insight inicial dessas bandas se não houvesse Lemmy. Mas se existe no mundo uma plateia que equipare todos eles (o berro tribal do Sepultura, a força íntegra de Lemmy, a piromania do Slipknot, a fúria do Metallica), era essa da terceira noite do Rock in Rio. Pela primeira vez, um toque proletário no mundo dourado do rock. Uma plateia que, como Lemmy, só quer bater a cabeça e curtir sua memorabilia em paz, não quer criar problemas. Mas não foge do mosh, uma dança estilizada de choques e mudança de direção, como se fosse uma multidão tonta em um navio afundando.

Lemmy é meio sem jeito quando bajula a plateia, quando pede para todos fazerem barulho juntos. É como se ele cumprimentasse alguém com a mão mole - na verdade, só quer berrar, acompanhado de uma banda de verdade, coisa que estava faltando no Rock in Rio. Lemmy quase não canta, só urra, mas há lirismo em sua voz, uma espécie de compreensão dolorida do mundo.

O caubói errante de uma das bandas mais barulhentas do rock abriu seu show com Iron Fist (1982), e mandou numa sequência de petardos da banda, como Stay Clean, Ace of Spades, Chase is Better. Know How to Die, Over the Top, Metropolis, Back in Line, Killed by Death, Overkill. O público, maltratado pela longa jornada, ainda assim acompanhou com vibração o show de Lemmy, um dos caras que mostram que viver segundo a própria lei é o melhor horizonte.

Uniforme. As milhares de camisetas pretas que invadiram a Cidade do Rock na tarde de ontem, o uniforme monocromático dos fãs do metal pesado de Metallica, Slipknot, Coheed and Cambria e Motörhead, formaram uma onda negra que se estendeu paciente e pacificamente a mais de 3 km da entrada dos portões. O preto das camisas, aliás, é um bem-vindo neutralizador da agressiva estratégia de marketing do Rock in Rio, que bombardeia a plateia de todos os lados com os luminosos logotipos dos patrocinadores.

A plateia era, em grande parte, homogênea e a identificação do coletivo com os arquétipos do metal (chifres, caveiras e sangue retratados nas camisas; o peso das guitarras no som) deu ao evento, pela primeira vez em três dias, uma cara de festival de rock.

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