'Hoje, é a PM que garante a segurança da USP'

Ex-reitor da Universidade de São Paulo (1986-1990) e ex-ministro da Educação (1991-1992), o professor de Física José Goldemberg diz que a presença da Polícia Militar é o que permite que a USP funcione com segurança, especialmente durante a noite. Por outro lado, Goldemberg diz que já chegou a reivindicar, durante seu mandato de reitor, o afastamento da polícia do câmpus, por entender que a presença policial atrapalhava a liberdade de pensamento e as discussões políticas em curso na universidade.

Entrevista com

BRUNO RIBEIRO, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2011 | 03h02

Por que os estudantes e parte dos funcionários são contrários à presença dos policiais na Cidade Universitária?

Isso é uma coisa que vem desde os anos 1970 e começou na Europa. A ideia é que a universidade é um território livre, tem de haver liberdade de pensamento, onde é possível discutir de ideias marxistas a religião. Durante o governo militar, essa rejeição à polícia se tornou muito aguda aqui (na USP) - era uma crítica à presença ostensiva e à não ostensiva. Tinha muito policial infiltrado entre os alunos, o que impedia as discussões que não fossem muito conservadoras. Muitos reitores tentaram evitar essa presença. E isso foi adiante (após o fim do regime). Eu mesmo, como reitor, tive de impedir a presença da PM. Havia maus-tratos contra alunos, até casos de tortura.

Essa realidade ainda existe nos dias de hoje?

Não, pelo contrário. Hoje, dado o clima de insegurança, é a presença da PM que garante a segurança física dos alunos. À noite, a USP é um lugar muito perigoso. Estavam ocorrendo muitos assaltos, houve até a morte de um aluno. Agora, estão trocando a iluminação para trazer mais segurança.

Então por que essa reação contrária aos policiais? Por que o pensamento do regime militar ainda vigora entre os alunos?

Muita gente se aproveita da ausência da polícia para práticas que não têm a ver com discussão política. Droga, pela legislação, é uma atividade criminosa. Há quem queira descriminalizar (a maconha). E essa discussão deve acontecer também na universidade. Mas não se pode reivindicar a saída da PM do câmpus para poder praticar crimes. Pela legislação, repito, maconha é crime.

A presença da PM não pode impedir esse tipo de discussão, por exemplo?

Uma pessoa drogada perturba as atividades do câmpus. Não se pode usar a descriminalização como bandeira para retirar a PM daqui. Pode se discutir.

Os alunos disseram que eles estavam lutando não por eles, mas por toda a sociedade. O senhor concorda com isso?

Não. Nós lutamos muito para haver liberdade de pensamento e ela existe dentro do câmpus. Misturar as duas coisas não é correto.

Como o senhor avalia a gestão do atual reitor (João Grandino Rodas)?

Ele tem feito um bom trabalho. Está construindo prédios, houve aumento de salários, a USP tem recebido bons investimentos.

Então por que ele se tornou um dos principais alvos dos manifestantes da USP?

Tem uma coisa de complexo de Édipo aí. Ele é como um pai, a figura da autoridade. Por isso, vira alvo dos estudantes.

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