Históricas, cavas de ouro do Jaraguá estão abandonadas

Vizinhos relatam até uso de drogas em uma delas; há plano de se criar parque e museu de mineração na área, mas ele ainda engatinha

FELIPE FRAZÃO, O Estado de S.Paulo

10 Dezembro 2011 | 03h06

O Jaraguá, na zona norte de São Paulo, esconde sob a terra um tesouro ameaçado pela expansão urbana desordenada e pelo descarte irregular de lixo e entulho. Às margens da Rodovia Anhanguera, entre loteamentos e favelas do Morro Doce de um lado e dois cemitérios do outro, estão quatro antigas cavas de mineração de ouro, que "sobrevivem" cobertas por árvores nativas de mata atlântica e são desconhecidas pelos vizinhos.

Para evitar que elas desapareçam - como ocorreu com uma quinta lavra de ouro que existiu ali até os anos 1990 e foi destruída pela terraplenagem de um terreno -, as cavas Jardim Britânia e Morro Doce precisam ser cercadas imediatamente. Mas não há nem sinal de grade por lá. Geólogos propuseram a criação de um parque municipal com 415 mil m². Dentro, sugerem a criação de museu da mineração e centro de educação ambiental.

Em nota, a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente disse ter aberto processo para adotar "procedimentos legais e possíveis desapropriações" para implantação do parque.

A preservação das outras cavas - Parque Anhanguera e Faldas do Morro Quebra Pé -, localizadas em áreas particulares (um clube de campo e um cemitério), depende da colaboração dos donos. Em todas, ainda há interesse histórico e até de mineração em subsolo profundo - apesar de, para especialistas, sua viabilidade econômica ser duvidosa.

A Prefeitura sabe disso há mais de um ano, quando formou grupo de trabalho para definir o futuro das cavas. Mas ainda não fez o recomendado no relatório final feito por especialistas e publicado dia 22 no Diário Oficial da Cidade. "É de estranhar o verdadeiro descaso que este primeiro ciclo do ouro, com duração de 200 anos, tem sido tratado pelas mais diversas instituições", diz.

O único avanço foi abertura do processo de tombamento das cavas em março pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade.

Importância. Em 1822, o mineralogista José Bonifácio de Andrada e Silva já considerara as cavas do Jaraguá antigas. Em 1950, o geólogo Theodoro Knecht fez um levantamento geral sobre áreas de mineração paulistas e mapeou novamente as cavas. O conhecimento, porém, ficou restrito a estudiosos e acadêmicos.

Estudos indicam que a Escola Municipal de Ensino Fundamental Jardim Britânia, por exemplo, foi construída sobre a cava de mesmo nome. E a abertura da Anhanguera passou sobre galerias de exploração de ouro.

Os atuais vizinhos simplesmente ignoram sua existência. A ocupação começou nos anos 1990. Na Morro Doce, há trilhas abertas, colchões e garrafas. Moradores denunciam ali venda e uso de drogas, além de esconderijo para prostituição. "Isso aí é o mato dos ratos e das cobras", diz a dona de casa Dalva Alves Pereira, de 49 anos, que há 20 vive ali e nunca ouviu falar nas cavas. "Se disserem que tem ouro, vão invadir com pá para cavar", alerta o músico Marcelo Santiago, de 44.

Para Celso Dal Ré Carneiro, autor do principal estudo sobre as cavas e pesquisador do Instituto de Geociências da Unicamp, é preciso estimular o conhecimento de quem vive ao lado de quatro séculos de história e não faz nem ideia disso.

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