Histórias marcadas pela tragédia do vôo 3054

Famílias inteiras, executivos, crianças em férias, grupo de tricoteiras...

19 de julho de 2007 | 13h10

Casos e histórias das vítimas ou dos raros sobreviventes da maior tragédia da aviação brasileira, ocorrida na terça-feira, 17, com o acidente com o Airbus da TAM, que explodiu ao bater no edifício da TAM Express na Avenida 23 de Maio.  As tricoteiras Sete aposentadas e pensionistas de um grupo conhecido como "tricoteiras" estavam no vôo. Levaram um ano para tricotar uma manta de 200 metros, que seria usada em protesto pelo não pagamento de precatórios no Rio Grande do Sul. Elas iriam ao lançamento do Movimento Nacional Contra o Calote Público na Fiesp. No total, eram 20 tricoteiras. Todas as quartas-feiras, elas se revezavam na Praça da Matriz, em Porto Alegre, aprontando a manta. Faziam parte do Sindicato dos Servidores Públicos Aposentados e Pensionistas do Estado do Rio Grande do Sul. Atualmente se mobilizava contra a Proposta de Emenda Constitucional(PEC) n.º 12, que prevê o pagamento dos precatórios por meio de leilão: quem oferecer maior desconto ao governo devedor recebe primeiro.   Lista completa dos mortos Quem são as vítimas do vôo 3054 As histórias das vítimas da tragédia O local do acidente Opine: o que deve ser feito com Congonhas? Os acidentes mais graves da aviação brasileira Cronologia da crise aérea Conheça o Airbus A320 A repercussão da tragédia no mundo Assista a vídeos feitos no local do acidente Conte o que você viu e o que você sabe     Para o grupo, se aprovada, a PEC oficializará o calote. Antes do embarque, no Aeroporto Salgado Filho, cinco das tricoteiras posaram para fotos. Entre elas, a presidente do sindicato, Júlia Camargo, 79 anos. Além dela, morreram no acidente a conselheira fiscal Sonia Machado (70 anos), a pensionista Nelly Elly Priebe (79 anos), as sócias Mery Wilma Grash Vieira (77 anos), Suely Leal da Fonseca (75 anos), Adelaide Helegda Rolin de Moura (73 anos) e Elcita da Silva Ramos (85 anos), a funcionárias Catilene Maia de Oliveira (35 anos) e a assessora de imprensa, Kátia da Luz Escobar (43 anos). Com as tricoteiras, viajavam a presidente do Sindicato dos Técnicos Científicos do Estado do Rio Grande do Sul (Sintergs), Nadja de Paula, 52 anos, e o diretor de divulgação do sindicato, Luiz Fernando Zacchini. A mãe de Nadja, Teresa, de 78 anos, desembarcou veio a São Paulo em busca dos restos mortais da filha.Harry PotterAssistir ao filme de Harry Potter. Era esse o programa que as irmãs Júlia Elisabete Gomes, de 10 anos, e Maria Isabel Gomes, 14, fariam quando chegassem a São José do Rio Preto, no interior paulista. As duas tinham ido visitar parentes nas férias e voltavam para casa, acompanhadas da avó Maria Elizabeth Caballero."Elas tinham programado assistir ao filme com as amiguinhas", contou a mãe, Carmem Caballero, antes de ir a São Paulo para fazer o reconhecimento dos corpos. "As duas estavam muito felizes." FériasAs férias escolares eram também o motivo da primeira viagem de avião de Renan Klug Ribeiro, de 13 anos, e de sua mãe, Vilma Klug, de 33. Moradores de Porto Alegre, eles iriam a Natal visitar uma colega de Vilma. Mãe e bebê Para tranqüilizar a esposa Jamile Ponce de Leon, de 21 anos, que temia em chegar ao aeroporto sozinha com o filho Levi, de 1 ano e oito meses, o advogado Ilderley Ponce de Leon, de 38 anos, decidiu dar prioridade a ela e ao bebê de colo na única vaga disponibilizada pela TAM, com o overbooking do 3054, na terça-feira, 17, em Porto Alegre. Ilderley embarcou uma hora antes em um vôo da Gol e estava no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, esperando a mulher e o filho para embarque imediato na conexão para Manaus. "Entrou em desespero vendo as labaredas comendo o Boeing. Agora está internado em um hospital em São Paulo", disse seu irmão Ildebrando Ponce de Leon. Ilderley e Jamile se conheceram há três anos quando ele estava em férias no Ceará. "Minha cunhada é de lá, mas se apaixonaram, casaram e moravam juntos aqui em Manaus há dois anos. O filho era a grande alegria na vida deles".Ministro perde filhoAos 75 anos, o ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal Néri da Silveira perdeu no acidente um dos sete filhos: o advogado Paulo de Tarso Dresch da Silveira, de 41 anos, casado e pai de duas meninas, de 10 e 6. "Estamos muito traumatizados. Meu filho estava na flor da idade, era estudioso, professor, pai dedicado. Fico sem ânimo para nada. Só a fé em Nosso Senhor é que vai nos dar forças."Júlio Redecker (PSDB-RS)Uma hora antes de embarcar no avião da TAM, já no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, o deputado Júlio Redecker (PSDB-RS) tentou mudar o vôo. Ligou para a assessora Nelci Bock, em Brasília, e pediu que ela tentasse remanejá-lo para um vôo da Gol. Ele queria ir direto para Guarulhos, de onde seguiria às 22h10 para Washington. "Ele pediu para tentar mudar, mas vi que o vôo da Gol também ia para Congonhas. Não tinha nenhum vôo direto para Guarulhos no horário", afirmou Nelci.O tucano escapou da morte em 1998, quando sofreu um grave acidente de carro poucos dias antes da eleição. Carregava placas de platina na coluna, que lhe causavam muitas dores quando viajava de avião. Por isso, era reservado para ele sempre um lugar perto da porta de emergência, onde o espaço entre as poltronas é maior. Segundo Nelci, Redecker chegou a pensar em viajar pela manhã de Porto Alegre para São Paulo, no mesmo vôo em que embarcaram a mulher e a filha mais velha. Mas, como tinha compromissos na capital gaúcha, decidiu deixar o vôo para o fim da tarde. Salete e Mariana já estavam em São Paulo na hora do acidente. Artista da GloboSe não fosse uma linha de telefone congestionada, o ator Daniel Oliveira poderia estar entre as vítimas do acidente. Segundo um assessor, ele estava em Porto Alegre na terça, 17, quando telefonou atrás de passagem a São Paulo justo no horário do vôo 3054. Ligou primeiro para a TAM, mas só dava ocupado. Acabou decidindo pela Gol. Seu avião partiu do Aeroporto Salgado Filho às 17h10, seis minutos antes do 3054. Daniel chegou em Cumbica pouco depois do acidente. O ator, protagonista do filme Cazuza - O Tempo Não Pára, participará da próxima novela das 18 horas da TV Globo. Até lá, está de férias. Ele havia ido a Porto Alegre ver a namorada, a atriz Vanessa Giácomo, que participava de gravação na cidade.Diretor do SBTJoão Roberto Brito, 45 anos, era formado em Administração de Empresas e há três anos era o diretor regional da sede de Porto Alegre da emissora de televisão SBT. Seus colegas diziam que em três anos no cargo ele fez tanta coisa que as realizações eram típicas de "três décadas de trabalho". Brito era casado com Ana Paula Brito. Deixou duas filhas gêmeas de dois anos, Ana Vitória e Maria Paula. Funcionário do SBTJosé Luiz Solto Pinto, 53 anos também era funcionário do SBT de Porto Alegre, no cargo de administrador de empresas. Natural de São Gabriel, era casado com Neusa Maria Pinto com quem teve três filhos, Débora, Igor e Andréia, todos adolescentes. Igor está estudando na Austrália, já foi avisado e está voltando para casa.Federação das IndústriasAttilio Sassa Bilibio, de 63 anos, era um empresário elegante, de ternos bem cortados, emoldurados por um par de olhos azul claríssimo e uma brilhante cabeleira grisalha. Era um homem simples. Derrubara mato a machado, trabalhara na lavoura de milho e amassara uvas com os pés para uma boa safra de tintos. Detalhes que o vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) se orgulhava de manter no currículo. Criou a Medabil Sistemas Construtivos em 1967, aos 23 anos, com um empréstimo equivalente na época a US$ 1 mil, tirados do bolso do pai. Comemorava as marcas impressionantes da empresa e planejava expansão. Queria cruzar as divisas do Sul e chegar ao Sudeste e Nordeste. Queria cruzar as fronteiras e chegar à Argentina. Queria cruzar o Atlântico e se estabelecer em Angola.Executivos da Vinícola AuroraA morte de Carlos Gilberto Zanotto, de 46 anos, superintendente, e Ivalino Bonatto, de 52 anos, gerente financeiro da Cooperativa Vinícola Aurora, comoveu a cidade de Bento Gonçalves, maior produtora de vinhos finos do País. Os dois iam visitar a sede do Bradesco, em Osasco, para agradecer o apoio recebido da instituição financeira em 1996, quando a cooperativa esteve em situação falimentar, e mostrar que, desde então, o faturamento da vinícola cresceu 253%, chegando a R$ 152 milhões em 2006. Fundada em 1931 e líder do segmento vinhos finos com 27% do mercado brasileiro, a Aurora é um símbolo regional que congrega cerca de 1,1 mil famílias produtoras de uva. Tanto Zanotto quanto Bonatto eram admirados na comunidade porque estavam na equipe que reergueu a cooperativa em 1996 sob o comando do ex-superintendente Hermes Zanetti. Zanotto fez carreira dentro da empresa, na qual ingressou quanto tinha 14 anos como carregador de caixas no setor de expedição. Deixou a mulher e uma filha de 11 anos. Bonatto teve trajetória semelhante, nos 30 anos que passou dentro da cooperativa. Deixou a mulher e um casal de filhos.Família de Natal (RN)  O empresário Ivanaldo Arruda da Cunha, de 51 anos, sua mulher Zenilda Otília dos Santos, de 44 anos, seus filhos Caio Felipe Santos da Cunha, de 13 anos, e Ana Carolina Santos da Cunha, de 10 anos, viajavam no vôo da TAM. Os quatro morreram no acidente. Eles estavam em viagem de férias. Voltavam de Gramado, no Rio Grande do Sul, passariam alguns dias em São Paulo onde moraram por 34 anos e o empresário tinha negócios, depois voltariam para Natal, no Rio Grande do Norte, onde moravam havia quatro anos. Ivanaldo, nascido em Santana do Matos, cidade próxima a Natal, administrava dois postos de gasolina, em Natal e Parnamirim. Mas continuou mantendo negócios em São Paulo, onde conheceu a paranaense Zenilda. Aqui revendia bombas hidráulicas e era sócio do Bar do Ivan, próximo à Universidade de Santo Amaro.Família de João Pessoa Ricardo Almeida, 38 anos, sua esposa Elenize Ferraz, 42 anos, e os filhos Larissa, de 13 anos, e Bruno, de 3, retornariam a João Pessoa, depois de uma semana de férias em Gramado, no Rio Grande do Sul. Ricardo Almeida, de 38 anos, vendedor de veículos da BV Financeira, em João Pessoa (PB), ganhou de presente uma viagem por cumprir as metas de vendas de veículos da empresa. Poderia escolher o destino: Chile, Florianópolis (SC) e Gramado (RS). Elenize era psicóloga do Hospital Universitário Lauro Wanderley, da Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa. Os parentes das vítimas ficaram desesperados. A mãe de Elenize, Elza Ferraz, 74 anos, entrou em estado de choque e foi sedada. Segundo o estudante Paulo Henrique, sobrinho de Elenize, a família tomou conhecimento de que os quatro estavam entre as vítimas da tragédia com o avião da TAM no Aeroporto Castro Pinto, em Bayeux (Grande João Pessoa), onde os quatro eram aguardados. Família de Birigüi A outra família que perdeu quatro parentes era de Birigüi, interior de São Paulo. O empresário de futebol Márcio Rogério Andrade, de 35 anos, era agente da Fifa (Federação Internacional de Futebol). Ele faria 36 anos no dia 31. Sua mulher, Melissa, de 29 anos, a filha do casal, Alanis, de 2 anos, e o irmão de Melissa, André Ura Dona, foram encontrar Márcio em Porto Alegre, onde manteve um encontro com representantes do jogador Ronaldinho Gaúcho. Márcio morou no Japão muitos anos, comprando e vendendo jogadores brasileiros para times estrangeiros, até cerca de dois anos atrás, quando ele e a mulher decidiram voltar para o Brasil, porque ela ficou grávida.Amazonense filho único O empresário amazonense Gabriel Correia Pedrosa Júnior, de 26 anos, trabalhava com o pai numa empresa de transportes aéreos para a bacia Amazônica e, há um ano, abriu seu próprio negócio, uma franquia da rede de fast food árabe. "Filho único, era um rapaz alegre e talentoso nos negócios. Estava em Porto Alegre fazendo um curso", contou um amigo. Na noite de terça-feira mesmo, o pai e a mãe do rapaz, Gabriel e Elisiê Pedrosa, teriam viajado para São Paulo num jato de um amigo da família. Médica oncologista A médica oncologista Lina Barbosa Cassol completaria 29 anos ainda neste mês. Natural de São Sepé, na região central do Rio Grande do Sul e acabara de ficar noiva de um colega médico. Ela viajava sempre a São Paulo, pois há quase quatro anos, estava à frente de pesquisas sobre câncer, egressa dos programas de residência em Medicina Interna e Oncologia do Hospital das Clínicas de Porto Alegre. Tinha concluído recentemente seu mestrado na Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre (PUCRS). Entre seus planos, queria passar o próximo ano inteiro nos Estados Unidos, para continuar suas pesquisas com câncer de mama, sob o respaldo e o patrocínio da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, segundo contou ao Estado o chefe do Serviço de Oncologia do Hospital de Clinicas de Porto Alegre, Sergio Jobim de Azevedo. Viagem de rotinaHeurico Tomita, 51 anos, fazia uma viagem de rotina, no Vôo 3054 da TAM. Ele estava acostumado a viajar de avião. Era engenheiro civil e a cada 15 dias ia de Maringá, no norte do Paraná, onde morava, e Cachoeira do Sul (RS), onde tinha uma filial de sua empresa, Consolit Engenharia e Sistemas Construtivos, uma empresa com 70 funcionários. Para se locomover entre uma cidade e outra ele tinha que fazer conexão em Curitiba ou São Paulo, pois não há vôos entre Maringá e Cachoeira do Sul. Casado, com dois filhos, de 19 e 22 anos, ele foi um dos fundadores e era o atual diretor do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Materiais Elétricos (Sindimetal) na região de Maringá. Sua empresa possui 70 funcionários. Tomita era também um dos membros ativos da colônia japonesa do norte do Paraná.Médico encontra filhoO médico ortopedista Sérgio Nicoletti, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) teve a sorte de encontrar seu filho no Hospital São Paulo, um dos pronto-socorros para onde os feridos estavam sendo encaminhados. Fabrício Nicoletti, de 25 anos, trabalha no setor de logística da TAM e estava no local quando o avião atingiu o prédio. Chegou ao hospital em estado grave, com queimaduras nas mãos e intoxicação pela fumaça, teve de ser internado na unidade de Terapia Intensiva (UTI). Seu de saúde de Fabrício é estável, segundo o hospital.A trabalhoO auditor contábil José Antonio Lima da Luz, 60 anos, morava em Londrina há oito anos, mas viajava com freqüência para seu Estado natal, o Rio Grande do Sul, para visitar seus clientes uma cooperativa gaúcha. Luz era casado, mas não tinha filhos.Workshoop de softersRoberto Gavioli, de 46 anos, colaborador do Instituto de Tecnologia de Software de São Paulo (ITS). Segundo seu colega de trabalho David Yoshida, ele viajou a Porto Alegre para participar de um workshop de um dia a convite da Softsul, uma entidade sem fins lucrativos que desenvolve softers. Yoshida conta que ele estava bem animado com o convite, já que o objetivo do trabalho deles é justamente elevar o nível das empresas de softers no Brasil. Gavioli era bacharéu em administração de empresas, com especialização em análise de sistemas, com MBA em Conhecimento, Tecnologia e Inovação. Era casado e tinha três filhos, o mais velho com 12 anos, outro com quase dois e uma menina ainda bebê.Triste coincidênciaUma triste coincidência marcou a morte da advogada catarinense Simone Lacerda Westrupp, uma das passageiras do Airbus. Vinda de uma das mais tradicionais famílias da política de Santa Catarina, ela era neta do ex-governador do Estado Jorge Lacerda, que também morreu num acidente aéreo, em junho de 1958, em São José dos Pinhais (PR). Junto com Lacerda estava o ex-presidente da República Nereu Ramos. Simone morava em São Paulo e voltava de uma viagem de negócios para o banco em que trabalhava. Comissária da TAMOutra catarinense morta no acidente foi a comissária de bordo da TAM Cássia Negretto, de 28 anos. Natural de Concórdia, ela fazia rotas internacionais, mas, segundo sua família, havia sido deslocada para Porto Alegre para treinar novos comissários. A comissária Flávia Seganfredo declarou que Cássia embarcou para Congonhas em seu lugar. As duas trocaram de escala a pedido de Flávia.Da mesma empresaUm diretor e um engenheiro da Coteminas, empresa do vice-presidente da República, José Alencar, estavam no vôo. O diretor da unidade de Montes Claros (MG), Fábio Vieira Marques Júnior, de 56 anos, e o engenheiro Rospierre Vilhena, de 33, viajaram na segunda-feira para Porto Alegre, onde participaram de uma reunião de trabalho. Rospierre era filho do vice-presidente industrial da companhia, Pedro Garcia Bastos Neto, e trabalhava em Belo Horizonte. Fábio Marques dirigia a unidade de Montes Claros, mas estava de mudança para a capital mineira. Quem o contratou, quase 30 anos atrás, foi o vice-presidente da República. Voltando de NYFabiano Marques, 30 anos, administrador de empresas, era um das 186 pessoas que estavam no vôo 3054 da TAM. Há cerca de um mês, ele voltou de um curso de abertura de capital e mercado financeiro na Universidade de Columbia, em Nova York, nos EUA. Tinha um escritório junto com um amigo em São Paulo. Na quinta-feira da semana passada, foi visitar os pais em Porto Alegre. "A perda de um filho é algo arrasador, devastador", diz o pai Oswaldo Marques, advogado. São SilvestreOsvaldo Luís de Souza, de 49 anos, passageiro do Vôo 3054, era dono da empresa Transmodel, especializada em transporte aéreo de medicamentos, especialmente vacinas, no Jardim Anália Franco, também na zona leste da capital. Nas horas vagas, o empresário gostava de praticar esportes. Uma de suas paixões era a maratona e disputou algumas vezes a Corrida de São Silvestre, tradicional competição que marca o fim do ano em São Paulo.AtrasoA artista plástica Olga Beltrão estava bastante emocionada no Aeroporto Afonso Pena, região metropolitana de Curitiba, no dia seguinte ao acidente. Ela escapou do acidente, porque chegou um pouco tarde para fazer a reserva. Acabou pegando o vôo 3060, que saiu de Porto Alegre a São Paulo cerca de meia hora depois. "A ficha caiu somente hoje", disse ela, que teve pesadelos durante toda a noite, em Curitiba, onde o avião acabou descendo após o acidente em Congonhas. Olga conta que a aflição não foi apenas dela, mas também da filha Renata, que está grávida de quatro meses e a esperava em São Paulo. Como houve demora na confirmação do vôo acidentado, houve desespero. "Foi tudo muito estressante."Troca de horárioA farmacêutica Ana Paula Costa Souza foi salva pelo atraso da pessoa com quem se reuniria em Porto Alegre. A reunião era para ser de manhã e foi transferida para a tarde. Com isso, ela não embarcou no 3054. "Ainda bem", reagiu. A maioria dos que estavam no vôo 3060 embarcaram para São Paulo num vôo da Gol no fim da manhã de quarta, 18.Via indiretaJá o vice-diretor de marketing gaúcho Luciano Medina foi salvo, indiretamente, por Luiz Moysés, marido de uma das vítimas - a colega de escritório Nádia Bianchi Moysés. Ele tinha passagem comprada para o 3054 e viajaria com Nádia e as colegas Fabiana Hetzel Amaral e Soraya Charara. Todos trabalhavam na Édison Freitas de Siqueira Advogados Associados e vinham a São Paulo participar de seminário jurídico. Mas a gráfica que fornece o material para as palestrantes, que pertencia a Moysés, atrasou a entrega do material das palestras e Medina resolveu esperar. Trocou a passagem para o vôo das 20h40. "A agência de turismo me ligou para avisar que o avião havia explodido e eu acabei dando a notícia para o Moysés", lamentou. Pai recenteHá 12 anos, o paulista Valdir Cordeiro de Moraes, 34 anos, foi morar em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul por causa de uma proposta de emprego. Sempre voltava a São Paulo e tinha orgulho de "não ter medo de avião". Casado, Valdir trabalhava no setor gráfico da multinacional Philip Morris. Ele tinha acabado de ser pai pela primeira vez. Com a tragédia, deixou a esposa e o filho de três meses. Viagem semanalToda semana, o paulistano Claudemir Arriero, 41 anos, viajava para Porto Alegre. Ele dividia São Paulo com a capital gaúcha por conta de seu trabalho como químico em uma empresa multinacional. Na terça-feira, 17, o pai dele seu Arriero foi buscá-lo em Congonhas, mas não levou o filho para casa. Estavam esperando por Claudemir, seus dois filhos adolescentes, um de 20 e uma menina de 13. Pai no desembarqueEliana Smith Bernardes, de 38 anos, trabalhava junto com seu pai, José Carlos Dornelles, em uma empresa de transporte de carga aérea. Toda semana voava para São Paulo. Na terça-feira, seu pai pegou um vôo antes para São Paulo, que chegou na cidade por volta das 17 horas. "Ela ainda me ligou de dentro da aeronave e disse: 'pai, me espera aí no aeroporto", diz José Carlos Dornelles. "Eu estava no desembarque de Congonhas quando ouvi um barulho enorme de explosão. Quando falaram que era um avião da TAM, sabia que minha filha estava lá. Ainda não sei como explicar o acidente para meus netos." Eliana tinha um filho de 5 anos e outro de 7.Audiência marcadaNádia Moisés Bianchi, advogada, era casada há 12 anos e morava em Porto Alegre. Ela tinha uma audiência marcada para as 10 horas de quarta-feira. "Ela vinha toda semana pra São Paulo, tinha vários clientes por aqui", diz seu pai, Luiz Alberto Moisés. "Ela saiu de casa atrasada para pegar o vôo, estávamos apreensivos porque achávamos que ela não iria conseguir chegar a tempo. Mas infelizmente ela chegou. A Nádia me mandou uma mensagem pelo celular: "estou sentada no avião". Se ela tivesse atrasado um pouquinho mais, não estaria no meio dessa tragédia. Não sei nem explicar a sensação, parece que o mundo perdeu todo o sentido depois disso." Pastor Luis Antônio Rodrigues da Luz, 43 anos, pastor da Igreja Assembléia de Deus, casado com Maria Isabel da Luz, pai de três filhos, Juliano, Eliezer e Priscila.Engenheiro florestalA família do engenheiro florestal Edmundo Smith, de 47 anos, teve a confirmação oficial de sua morte na madrugada de quarta-feira, 18, quando seu nome apareceu numa lista divulgada na internet. Mas desde as primeiras notícias do acidente, a mulher dele, Marisa Smith, já acreditava que Edmundo estava entre as vítimas. A irmã do engenheiro, Jaqueline, contou que ele, a mulher e a filha de 16 anos trocaram o Rio de Janeiro por Minas Gerais havia pouco mais de um ano. Edmundo era o engenheiro responsável pela floresta administrada pela empresa Satipel. "Meu irmão adorava seu trabalho, gostava muito do que estava fazendo", afirmou Jaqueline. Edmundo Smith havia viajado para Porto Alegre para dar palestras. Um baianoPelo menos um baiano estava no vôo 3054. O administrador de empresas Janus Lucas Leite Silva, de 26 anos, solteiro, era natural de Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, e trabalhava, na mesma cidade, como analista de importação da Braskem. Promessa de casamentoEsio Siqueira de Freitas, tinha acabado de completar 24 anos no dia 11 de julho, já morava com a namorada há um ano e meio em um apartamento no Paraíso, o emprego era bom e o próximo passo era ampliar a família. Mas a idéia de ter um filho foi interrompida pela tragédia. Antes de sair de Porto Alegre, para onde tinha ido a trabalho como analista de sistema, Freitas chegou a ligar para casa só para prometer que iria se casar no papel com a namorada. Não deu tempo. Ele era o mais velho de três irmãos.Pela televisãoUm chefe bem humorado, que adorava fazer piadas, mas detestava andar de avião. Assim foi definido Guilherme Reis Pereira, 38 anos, por suas funcionárias. Ele era o chefe executivo da área comercial de uma empresa. Sempre viajava, mas a única exigência que fazia era que a companhia precisava ser a TAM. Por este motivo, foi encaixado pela funcionária da empresa no Vôo 3054. Sua esposa e três filhas, de 14, 9 e 4 anos, souberam da tragédia pela televisão.Funcionários do GerdauO grupo Gerdau tinha quatro funcionários a bordo do vôo 3054 da TAM.Os funcionários eram a gerente de recursos humanos da Gerdau Sul, Andréa Rota Sieczkowski, de 39 anos, o consultor de marketing da operação de negócios Aços Longos Brasil, Andrei François Mello, de 42 anos, o gerente de serviços financeiros da área de serviços compartilhados Gerdau, Luiz Baruffaldi, de 54 anos, e o assessor técnico da área de tecnologia da informação Peter Max Finzsch, de 28 anos. Todos eles eram casados e Andréa deixou dois filhos e Barufaldi, três.Ex-secretário do MSO ex-secretário estadual de Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Agrário do Mato Grosso do Sul José Américo Flores do Amaral também é uma das vítimas do vôo 3054 da TAM. Produtor rural, Amaral, em sua gestão entre 1991 e 1994, foi responsável pela implantação de uma série de programas de fomento ao agronegócio de Mato Grosso do Sul.Estudante de medicinaMariana Pereira, 22 anos, saiu de Porto Alegre e iria se encontrar com a mãe que a aguardava em Congonhas. Ao tomar conhecimento do acidente e confirmar que o nome da filha estava na lista de passageiros, Maurício, que é diretor médico da Clinica Renascença, em Aracaju (SE), viajou para São Paulo. "Estou aqui com todos vários documentos da Mariana, aguardando para fazer o reconhecimento", disse Maurício, com a voz embargada confirmando que a filha morreu no acidente aéreo. O médico reside em Sergipe há pouco tempo e a Mariana não era sergipana, mas paulista.Secretário-executivo da AbimaqO secretário-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Demétrio Travessa, de 46 anos, era funcionário da instituição havia 22 anos e, atualmente, presidia o Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento da Indústria de Máquinas da Abimaq. Era engenheiro mecânico e entrou na associação como estagiário. A Abimaq lamentou em comunicado a perda do secretário-executivo.Lista da TAMOs parentes do cearense Fábio Costa Balsells acreditavam que ele embarcaria de Porto Alegre, com destino a São Paulo, apenas na quarta-feira, 18. Surpreenderam-se ao ver o nome dele na lista de passageiros que estava no Airbus da TAM. Fábio era administrador de empresas. Estava em Porto Alegre a trabalho. Ele morava em São Paulo desde 2004 e era funcionário da Petrobras desde 2006. Casado com uma carioca há um ano, não tinha filhos. Amigos o descrevem como uma pessoa alegre e de bem com a vida. Desde a noite de terça-feira, os pais de Fábio, que moram em Fortaleza, estavam apreensivos. Ligaram para a nora, que mora em São Paulo. Não tinham certeza se Fábio havia embarcado ou não no vôo 3054. De manhã, ao olharem a lista de passageiros, ficaram desesperados.De ItápolisO engenheiro eletrônico Rodrigo Souza Moraele, de 35 anos, uma das vítimas do acidente com o Airbus da TAM, trabalhava para a Siemens e voltava a São Paulo depois de uma missão em Porto Alegre. Rodrigo era filho único e casado. Deixa a mulher e um filho de três anos. Embora estivesse morando na capital, sua família é de Itápolis, a 370 quilômetros de São Paulo, na região de Araraquara, e lá deverá ser sepultado. Depoimentos dos bombeirosO tenente Henguel Ricardo Pereira, de 36 anos, do Corpo de Bombeiros de são Paulo, estava na primeira guarnição que chegou ao local do acidente com o Airbus da TAM, na região de Congonhas, zona sul da cidade, e resgatou duas pessoas com vida. Com uma escada convencional, encontrada no prédio da TAM Express, ele e o sargento Lealdo Machado, de 34 anos, salvaram duas pessoas que estavam no 4.º andar. Henguel conta que havia muita fumaça e as pessoas estavam prestes a pular. "Tive medo, achei que não fosse conseguir porque o prédio estava desabando", lembra. O tenente começou a trabalhar minutos após o avião da TAM colidir contra o edifício e permaneceu no local durante 16 horas. "Foi a maior experiência da minha vida", diz. Bombeiros de toda a capital e Grande São Paulo trabalham no local do acidente. A primeira equipe chegou apenas três minutos após o desastre. "Chegamos antes de sermos avisados pela Central de Operações", destaca o sargento Geraldo Félix Câmara, do 1.º Grupamento de Bombeiros, da mesma equipe do tenente Henguel. Eles se dirigiram ao local após ouvirem o estrondo provocado pela colisão do avião. O soldado Josivaldo Francisco da Silva, que chegou ao local cerca de 10 minutos após o acidente, conta que o prédio estava em chamas e o clima era de muita tensão. "Um hotel ao lado tinha duas pessoas que queriam pular do último andar", recorda. Diante da delicada situação, Josivaldo, acompanhado do terceiro sargento Rodrigues, do cabo Eduardo, do sargento Spanholo e do soldado Cachedi, entraram no hotel. "Retiramos as duas pessoas do último andar. No total, resgatamos do local seis pessoas, três delas inconscientes", recorda o soldado. Já o capitão Roberto Lago, do Centro de Suprimento e Manutenção/Material Operacional de Bombeiros (CSM/MOB) estava em casa com sua família quando viu o acidente pela TV. Ele saiu imediatamente para ajudar no socorro. "Fui para o quartel, peguei meus uniformes, e vim para o local", afirmou. Lago, que tem uma filha de 3 anos e um filho de 8, contou que os dois ligaram várias vezes para saber se estava tudo bem com o pai.  

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