Historiadores e médicos analisam a importância do estudo

Para historiadores e médicos, trabalho abre um campo de pesquisa inédito no Brasil, que une tecnologia de ponta ao estudo de personagens históricos

Edison Veiga e Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S. Paulo

18 de fevereiro de 2013 | 14h24

SÃO PAULO - Historiadores e médicos que já sabiam da pesquisa da historiadora e arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel avaliam que a maior contribuição de seu mestrado está em construir uma base - com imagens e laudos - para cientistas futuros e abrir um campo de pesquisa inédito do Brasil, que une tecnologia de ponta ao estudo de personagens históricos. 

"Essa pesquisa estabelece parâmetros no País de uma área pouco desenvolvida. E cria uma base para estudos que ainda devem ser feitos", comenta o historiador Maurício Vicente Ferreira Júnior, diretor do Museu Imperial de Petrópolis e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. "Há muitas coisas incríveis que um trabalho como esse pode vislumbrar, como o detalhamento das vestes e as características físicas."

Já o historiador e arquiteto Paulo Rezzutti, do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, ressalta as descobertas que contradizem a História. "O estudo da Valdirene encerra a questão daquele boato de que Dona Leopoldina havia morrido depois de ser arremessada escada abaixo em virtude de uma briga com Dom Pedro I", comenta. "Se houve safanão ou não, não saberemos, mas os exames mostram: não ocorreu fratura alguma."

O historiador Maurício elogia ainda o rigor científico e o respeito com que Valdirene tratou os restos mortais da família imperial. "Confesso que quando soube de suas intenções, ainda antes da exumação, fiquei espantado. Em seguida, veio a avaliação se ela teria ou não condições de realizar tudo o que imaginava", comenta. "Mas ela foi até o fim, buscou todas as autorizações, mobilizou uma equipe e fez o trabalho."

Base médica. Para os médicos envolvidos, o trabalho também apresenta várias possibilidades. "Temos um projeto aqui na Medicina e esperamos que 'autópsias virtuais', exames como esse, se tornem constantes", afirma o médico patologista Carlos Augusto Gonçalves Pasqualucci, diretor do Serviço de Verificação de Óbitos da Capital e professor da Faculdade de Medicina da USP. Essa opinião é corroborada pelo médico Paulo Hilário Saldiva, chefe do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP. "Hoje temos confiança de que, para estudarmos esse tipo de material, não precisamos abrir uma múmia, por exemplo", comenta. "Sem dúvida, esse estudo abre portas para um nicho fascinante: a pesquisa histórica com restos mortais, de fósseis a corpos." 

O também médico patologista Luiz Fernando Ferraz da Silva, especialista em patologia pulmonar da Faculdade de Medicina da USP, lembra que tais estudos são importantes pelo "caráter histórico". "Há um interesse em se conhecer mais sobre esses personagens", afirma.

A "memória digital" é outro fator importante. Como todas as imagens foram gravadas com a melhor resolução disponível, futuros pesquisadores terão facilidade para acessar os dados sem enfrentar os mesmos trâmites que Valdirene. "Qualquer outra pesquisa pode ser feita sem a necessidade de manipular novamente os restos da família imperial. Por isso, precisamos manter essas informações digitalmente", comenta o médico radiologista Edson Amaro Jr., coordenador de neuroimagem funcional da Faculdade de Medicina da USP.

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