História das fazendas paulistas é resgatada

Estudo cataloga 16 propriedades do interior que integram patrimônio do Estado

RICARDO BRANDT / CAMPINAS, O Estado de S.Paulo

07 Janeiro 2013 | 02h07

No século 19, a condessa do Pinhal mandou construir na fazenda rodeada de cafezais uma escadaria de pedra, em forma de canaleta, de mais de 50 metros morro acima. A água gelada de uma nascente corria degraus abaixo, por onde a condessa subia, de pés descalços, todo santo dia. A engenhoca, parte de um tratamento medicinal à base de água, foi uma réplica feita após viagem do casal à estância hidromineral de Baden-Baden, na Alemanha - um luxo para poucos, até hoje.

Aberta a visitações pelo atual proprietário, Fernão Carlos Botelho Bracher, um bisneto do conde, a Fazenda do Pinhal integra um conjunto de 16 propriedades agrícolas dos tempos do café que ainda preservam rico acervo histórico e acabaram de passar pelo mais complexo e abrangente estudo sobre o patrimônio cultural rural paulista.

O projeto foi coordenado pelo Centro de Memória da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e procurou catalogar objetos e prédios históricos encontrados nessas fazendas do interior do Estado. Iniciado em 2007, ele acaba de ser concluído. A ideia nasceu de um movimento de 13 proprietários e descendentes que, por conta própria, fundaram em 2001 a Associação de Fazendas Históricas Paulistas, para abrir as porteiras de suas terras ao público e explorar o turismo histórico. Algumas viraram hotéis ou montaram estrutura para hospedar turistas.

Raízes. "O turismo rural é uma atividade muito recente. Por causa do desgaste do roteiro tradicional de sol e praia e por causa do estresse urbano dos grandes centros, tem sido crescente a procura por esse tipo de atividade", explica a arqueóloga Rosângela Cortez Thomaz, professora de Turismo da Unesp, em Rosana (SP). Geograficamente, as fazendas estão distribuídas em seis núcleos regionais: Campinas, Mococa, Limeira, São Carlos, Itu e Vale do Paraíba.

As propriedades que integram o estudo são do século 19, algumas do século 18. Eram unidades autônomas de produção. Do ponto vista arquitetônico, as casas-sedes têm, em geral, traços bandeiristas, enquanto as construídas no fim do século 19 apresentam mais ornamentações e elementos de estilo europeu trazidos pelos imigrantes. "Se Mário de Andrade, nos anos de 1930, lamentava que em São Paulo não tínhamos um barroco urbano como Salvador, Rio ou Ouro Preto, hoje temos certeza absoluta de que grande parte do patrimônio que caracteriza o nosso território paulista é o das fazendas históricas", afirma o coordenador do estudo, Marcos Tognon.

Uma curiosidade é a localização quase sempre em pontos mais altos que as demais de edificações da fazenda, como terreiros, tulhas e casas de máquina. Além de permitir ao dono visão das principais áreas de trabalho, servia aos demais moradores como referência de poder.

Exemplo. A Fazenda do Pinhal é uma das principais referências em preservação e recuperação do acervo para visitação pública. Além do conjunto do casarão que mistura influência colonial mineira e paulista, a tulha e casa das máquinas, feitas toda em pedra, estão totalmente preservadas e funcionando.

Além disso, o acervo artístico abriga preciosidades como o quadro Fazenda do Pinhal, um óleo sobre tela de 90x230, de Benedito Calixto, pintado em 1900. A visita ao conjunto, que dura cerca de 2 horas, custa R$ 5 por pessoa - idosos e grupos de estudantes não pagam.

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