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História da Liberdade vai dos enforcados aos imigrantes

Bairro que era cenário de execuções se tornou reduto de asiáticos no centro da capital paulista

O Estado de S. Paulo

13 Outubro 2015 | 19h04

No princípio, o mais famoso bairro oriental do Brasil não se chamava Liberdade e tampouco era casa de imigrantes japoneses, coreanos e chineses. No século XVI, por exemplo, perto de onde hoje fica a Igreja de Santa Cruz dos Enforcados, havia uma capela de mesmo nome e um cemitério (dos Aflitos). O Pelourinho, local em que eram torturados os escravos, também ficava por ali e a região durante muito tempo levou o nome de Campo da Forca e teve justamente essa função até 1870, quando foi extinta a pena de morte por enforcamento. O espaço seria então convertido em praça (ou largo) da Liberdade. 

No século XVII, havia naquelas terras a meio caminho entre o centro e o então município de Santo Amaro, chácaras de perfil rural e cultivo de chá. Com o tempo, vieram os loteamentos e foram rasgadas a Avenida Liberdade e a Rua Vergueiro e fundados os distritos Sul e Norte da Sé. O Sul, por sua vez, ganharia o nome de Liberdade em 1905. Só no começo dos anos 1900 a imigração oriental se consolidou na região. 

1. Séculos XVI, XVII e XVIII

A atual praça da Liberdade era conhecida como Campo da Forca. Ficavam na região, ainda, o Pelourinho e um dos primeiros cemitérios da cidade, o dos Aflitos, que não existe mais. 

2. Século XIX

Em 1833, como parte do distrito da Sé, a região recebe o nome de distrito Sul da Sé. Perto da virada do século, o bairro passa a ganhar contornos mais urbanos, ruas e novos imóveis. A morte por enforcamento no Brasil é abolida em 1870 e o Campo da Forca passa a se chamar Largo (ou Praça) da Liberdade. Os trilhos do bonde fazem a conexão do centro com Santo Amaro – e a rua Domingos de Moraes deriva desse caminho. Os habitantes do bairro eram em sua maioria imigrantes europeus, sobretudo italianos e portugueses.

3. Século XX

1905

É criado, no lugar do distrito Sul da Sé, o distrito da Liberdade.

1908

Chegam os primeiros imigrantes japoneses ao Brasil, em 1908, quando ancorou no porto de Santos o navio Kasato-Maru. 

1920

Na década de 20, os japoneses viviam e trabalhavam (abriam seus negócios) na Conde de Sarzedas. Vieram outros navios ao longo dos anos e a essa altura Tabatinguera, Conde e adjacências já eram habitadas em sua maioria pelos orientais.

1924

No dia 5 de julho estourou a Revolução de 1924, segundo capítulo do Tenentismo, que pretendia derrubar o governo da República. A cidade era estratégica e tinha a melhor rede ferroviária. A artilharia dos federais, em defesa do governo, pautou boa parte do combate. Eles bombardeavam os rebeldes destruindo casas e matando civis. A Liberdade, onde havia linhas de defesa dos revoltosos, foi uma das vítimas, bem como a Aclimação e a Vila Mariana.

1930 e 1940

A Avenida Liberdade foi alargada e a verticalização despontou em suas margens.

1942

A essa altura, durante a Segunda Guerra Mundial, cerca de 13 navios brasileiros já haviam sido atingidos e perdidos. Morreram quase 200 pessoas. Patrulhas policiais vasculhavam a Liberdade e a vida da colônia japonesa. Eles entravam nas casas em grupos a procura de armas ou indícios de ligação dos moradores com o governo japonês.

1950, 1960 e 1970

O subdistrito da Liberdade era um dos mais populosos da cidade, com 16.720 habitantes. A imigração japonesa se consolidava e sua cultura ganhava força em festas e na paisagem do bairro. Muitos coreanos e chineses também se mudaram para a Liberdade. Chegaram as típicas lanternas suzuranto. O "Bairro Oriental", que reúne ruas e praças decoradas, simulando uma cidade japonesa, surge oficialmente em 1974. No ano seguinte, são inauguradas as estações Liberdade e São Joaquim do Metrô.

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