Claudio Moura
Claudio Moura

Hipopótamo ganha próteses dentais metálicas

Com dor causada por vício de roer objetos, animal de apenas dois anos e meio foi submetido a um procedimento inovador e recebeu novos dentes de metal

Fábio Brito, O Estado de S.Paulo

27 Fevereiro 2017 | 03h00

Dor de dente e exposição do canal são naturalmente indicações para ir ao dentista, não fosse o fato de o paciente pesar toneladas e ser um animal selvagem. O hipopótamo Yago, residente do Aquário de Natal, foi submetido a um tratamento odontológico inovador e recebeu próteses dentárias metálicas para recuperar os dentes.

Apesar de ter apenas dois anos e meio – um hipopótamo vive, em média, 40 anos –, Yago já sofreu sérios problemas dentários. A causa não está relacionada ao que come, mas sim a um problema comportamental. O animal criou o vício de roer as paredes do recinto onde vive e desgastou os dentes até a exposição do canal dentário, o que causava dor e o impedia de se alimentar corretamente.

“Em animais, o vício de roer paredes e objetos se assemelha ao bruxismo nas pessoas. O problema, que causa a destruição gradativa do dente, pode expor o canal, algo muito grave e dolorido. Pode provocar também infecções e levar à morte do animal”, explica o veterinário Roberto Fecchio, especialista em odontologia de animais selvagens, que coordenou a equipe responsável pelo tratamento de Yago.

Por causa da extensão do problema, o hipopótamo precisou de tratamento de canal em quatro dentes, além de próteses dentárias para protegê-los de novos desgastes. O tratamento exigiu planejamento de meses, com cerca de 20 profissionais envolvidos, entre médicos veterinários, biólogos, dentistas, protéticos e tratadores.

A logística de trabalho exigiu modificações na estrutura do recinto para permitir o manejo do animal e minimizar riscos. Os hipopótamos, apesar de parecerem mansos nos desenhos animados, estão longe de serem assim. É o animal que mais mata pessoas na África. 

Além da agressividade, os hipopótamos têm particularidades que dificultam os procedimentos dentários, como o tamanho dos dentes e o fato de eles crescerem ao longo de toda a vida do animal.

“Não existe material odontológico para animais deste porte e, assim, precisamos adaptar muitas coisas. O acesso ao canal é feito com o uso de furadeiras domésticas, por exemplo”, relata Fecchio.

Cirurgias odontológicas em animais implicam ainda outro risco: a anestesia.

“A anestesia de hipopótamos é uma das mais difíceis do mundo, com alto índice de mortalidade. No Brasil, pouquíssimos animais dessa espécie foram anestesiados e apenas um, antes do Yago, para a realização de um tratamento odontológico”, explica o médico veterinário Cláudio Moura, que coordenou a equipe responsável pelo procedimento.

Moldes. Foi necessário solicitar a ajuda dos profissionais da Faculdade de Odontologia Humana da Universidade Potiguar (UNP), em Natal. Eles realizaram a moldagem dos dentes antes da cirurgia, sem a necessidade de anestesiar o animal.

O procedimento durou cerca de quatro horas. Vinte e quatro horas após a cirurgia, Yago já se alimentava e se mostrava ativo. “Esperamos relatar cientificamente o procedimento, em alguma revista da área de medicina de animais selvagens, para que nossa experiência sirva de referência”, afirma Fecchio.

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