Heróis da libertação

'Na ditadura militar, a gente torcia contra as autoridades fardadas. Agora, não mais os encaramos como encarávamos os soldados americanos no Vietnã'

Sergio Augusto, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2010 | 00h00

Artigo

Não assisti ao filme Tropa de Elite e me pergunto se ainda terei ânimo para apreciar um simulacro do que há dias estou vendo na televisão, ao vivo, em tempo real, com tiros, sangue, bandidos e soldados de verdade. Como todos os cariocas que puderam ficar (ou se esconder) em casa na quinta-feira, não desgrudei os olhos do vídeo, acompanhando, entre aturdido e chocado, a invasão da Vila Cruzeiro por centenas de capitães Nascimento. Aturdido, chocado e a princípio incomodado ao me surpreender torcendo pela polícia como as crianças do meu tempo vibravam com a chegada da 7 .ª Cavalaria, sem se darem conta de que os brancos e não os pele-vermelhas eram os verdadeiros vilões do bangue-bangue.

Durante a ditadura militar, a gente torcia contra as autoridades fardadas, os milicos eram os nossos inimigos, os guardiães do autoritarismo. Agora, não mais os encaramos como encarávamos os soldados americanos no Vietnã, e sim como os GIs da Segunda Guerra, heróis da libertação. Ou, em escala mais modesta, como os bombeiros, os "bravos soldados do fogo" do clichê jornalístico, seus benignos parceiros em mais esta luta contra o crime organizado.

De tanto persistirem na prática de delitos imperdoáveis, alguns hediondos como a execução do jornalista Tim Lopes, os traficantes não conseguiram apenas instaurar o pânico na cidade e transformá-la numa praça de guerra, também nos forçaram a distinguir, sem angústias e com nitidez, de que lado está o bem (nos morros e no asfalto) e de que lado está o mal. A população carioca, e em particular os moradores das favelas, parece ter percebido como em determinadas circunstâncias o maniqueísmo tem lá suas virtudes.

Mas algumas dúvidas persistem. Que fim será dado às milícias? É possível ver as UPPs como um socorro confiável o bastante para encerrar um longo ciclo vicioso de pobreza, desassistência social e violência?

É COLUNISTA DO "ESTADO"

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