Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

Herdeiros vão reabrir restaurante do Ca''d''Oro

Família de Fabrizio Guzzoni, fundador do hotel, pretende manter clássicos no cardápio

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2011 | 00h00

Os órfãos do restaurante Ca"d"Oro, símbolo de alta gastronomia em São Paulo entre 1953 e 2009, podem sorrir de novo. Seus antigos proprietários, a família Guzzoni, planejam reabri-lo em dois anos. Nos áureos tempos, tanto o restaurante quanto o hotel da grife, que ficavam no centro de São Paulo, foram frequentados por nomes como Pablo Neruda, Jorge Amado, o rei Juan Carlos, da Espanha, e Pelé.

Desta vez, a família se associou à incorporadora Brookfield em um megaempreendimento imobiliário no mesmo terreno - na esquina das Ruas Augusta e Caio Prado. São duas torres com hotel, conjuntos comerciais e apartamentos residenciais.

Administrador da cozinha do Ca"d"Oro nos últimos dez anos de funcionamento, Fabrizio Guzzoni, de 31 anos, neto homônimo do fundador, afirma que vai manter no cardápio clássicos como o ossobuco com risoto à milanesa, o bacalhau a livornense com polenta e o cozido.

"Não temos vocação para servir melancia com camarão e guacamole", diz Fabrizio, referindo-se ao que chama de "cozinha de emulsão" dos restaurantes contemporâneos. Ele diz, porém, que não vai resistir à introdução de novos pratos, "desde que sigam a espinha dorsal do cardápio do Ca"d"Oro". "Se há algum ingrediente novo, na moda, a gente vai usar, mas obedecendo à cozinha do norte da Itália que fez a tradição do restaurante."

Novos tempos. A decoradora Patrícia Anastassiadis, responsável por manter a atmosfera do lugar sem repetir o antigo projeto, diz que pretende "trazer contemporaneidade, lembrando a história do Ca"d"Oro".

Em sua nova encarnação, o restaurante vai tentar manter o padrão que o tornou referência por pelo menos 20 anos. Mas Aurelio Guzzoni, de 60, filho do fundador, explica que não é mais possível sustentar o requinte de ter, por exemplo, dois garçons para cada quatro mesas.

"Hoje os gastos são maiores e até os melhores restaurantes não têm como oferecer mais de um garçom para cada sete mesas." A média de preço por refeição, segundo ele, vai ser a mesma: cerca de U$ 50.

Ele diz que, fora o cozido, que continuará sendo servido no tradicional carrinho-réchaud de inox, não há mais condição de finalizar os pratos na mesa. "Agora, leva-se tudo "empratado", no sistema americano", avisa.

Ático de Souza, de 84 anos, maître do Ca"d"Oro durante 37, acha difícil que o novo restaurante consiga chegar perto do que foi o antigo. "Quem criou o Ca"d"Oro e fez dele o maior restaurante de São Paulo foi o Fabrizio-avô. Os dois chefs italianos daquela época morreram, o outro maître morreu e não estou mais lá. Os herdeiros não conseguiram impedir o fechamento", diz ele, que hoje presta consultoria para restaurantes do Fasano.

Para Ático, a alegada decadência da Augusta não justifica a derrocada do Ca"d"Oro. "Aquela parte sempre foi decadente. O que faz um restaurante é a comida, o serviço, a frequência. Eu tô falando de uma época em que a rainha Sílvia, da Suécia, ia com o pai ao Ca"d"Oro, entende?"

PONTOS-CHAVE

Uma história de mais de 50 anos de tradição

Fundação

Criado em 1953 pelo italiano Fabrizio Guzzoni como o primeiro cinco estrelas da capital, o hotel ficava na Bela Vista. O prédio da Augusta foi construído em 1960.

Hóspedes

O hotel era o preferido de celebridades e políticos. Nele se hospedaram do ex-presidente João Baptista Figueiredo ao tenor Luciano Pavarotti.

O fim

Após o fechamento do hotel, em 20 de dezembro de 2009, móveis, objetos e até os livros de registro de hóspedes foram a leilão.

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