Victor Vieira/Estadão
Victor Vieira/Estadão

Haitianos são alvo de ataques no Glicério

Ação foi no dia 1º, mas a polícia ainda busca pistas dos autores e a suspeita é de xenofobia; vítimas receberam atendimento médico

Raquel Brandão e Victor Vieira, O Estado de S. Paulo

08 de agosto de 2015 | 18h46

SÃO PAULO - Seis haitianos foram baleados no dia 1.º, na Baixada do Glicério, centro de São Paulo. Uma das suspeitas é de que o grupo tenha sido alvo de xenofobia. Segundo a Secretaria Municipal de Direitos Humanos, que acompanha o caso, os disparos atingiram as pernas das vítimas. Todos já receberam atendimento médico, diz a pasta, e foram liberados.

O primeiro ataque foi às 9 horas da manhã daquele sábado. O autor dos disparos saiu de um carro cinza e atingiu um haitiano que passava próximo à Igreja Nossa Senhora da Paz, na Rua do Glicerio. Antes de atirar, segundo a Secretaria de Direitos Humanos, o criminoso teria gritado "haitiano!". A vítima foi socorrida por um guarda civil metropolitano. O caso foi registrado no 8.° Distrito Policial (Brás).

Os outros ataques ocorreram no começo da noite daquele dia, na mesma rua, a poucos metros da igreja, onde era realizada a missa. "Não percebemos nada na hora", afirma Paolo Parise, pároco local, que ajudou algumas das vítimas. Quatro homens e uma mulher foram atingidos. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, os primeiros atendimentos foram na Assistência Médica Ambulatorial (AMA) Sé, no centro. Depois, o grupo foi encaminhado à Santa Casa, também na região central.

Na noite de sexta, 7, eles foram para o Hospital do Tatuapé, na zona leste, para mais exames. Das seis vítimas, duas ainda terão de retornar ao hospital amanhã para extrair balas que ficaram alojadas no corpo. Uma delas é Michelet Saint-Louis, de 29 anos. Ele conta que estava conversando com um amigo na rua quando sentiu o impacto e a forte dor na perna esquerda. "Não consegui ver de onde veio", relata o haitiano, que vive em São Paulo há um ano e sete meses. "Ainda dói um pouco, mas agora está melhor por causa dos remédios".

Ele afirma que não ter inimigos no bairro. "Não tenho tempo de entrar em confusão. Trabalho o dia inteiro e estudo inglês à noite", diz o haitiano, operário de uma obra em Guarulhos, na Grande São Paulo. "Agora estou com muito medo de ficar aqui", acrescenta o imigrante, que mostra a cicatriz e o pequeno projétil ainda sob a pele da perna. Saint-Louis não conhecia as outras vítimas.

Investigação. A Secretaria de Segurança Pública tem registro apenas do primeiro atentado e ainda não há suspeitas sobre a identidade do atirador. A Polícia Civil pediu imagens de câmeras de vigilância da rua para ajudar na investigação. Outros haitianos e comerciantes do bairro desconfiam que, nos ataques da noite, os tiros podem ter vindo de um prédio vizinho. "É estranho porque nunca vi brigas entre haitianos e brasileiros por aqui", comentou o dono de uma loja nas imediações.

Patrick Dieudanne, um haitiano que ajudou parte das vítimas, acredita que o motivo do crime possa ser vingança. "Outro dia, um homem estava tentando roubar a bolsa de uma mulher, mas um haitiano pegou a bolsa e devolveu", contou. Depois disso, o ladrão teria ameaçado o imigrante por impedir o roubo. A Secretaria de Direitos Humanos informou, em nota, que vai investigar os ataques "independentemente da apuração desenvolvida pelas autoridades policiais responsáveis".

Nos últimos meses, a região do Glicério se tornou uma colônia de haitianos na capital. Em 2014 e neste ano, a vinda dos imigrantes desse país chegou a ser motivo de desentendimentos entre a Prefeitura e o governo do Acre, que enviou ônibus de haitianos para São Paulo. Inicialmente, a gestão paulistana reclamou de falta de diálogo sobre o encaminhamento dos estrangeiros.

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