Haitianos estão sendo 'despejados' em São Paulo, diz secretário

Rogério Sottili, da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania criticou postura do Acre que não estaria avisando sobre a chegada de estrangeiros

Bruno Ribeiro e Rafael Italiani, O Estado de S. Paulo

28 Abril 2014 | 11h50

Atualizada às 20h17

SÃO PAULO - A administração municipal fez nesta segunda-feira, 28, a primeira crítica à forma como o governo do Acre tem enviado haitianos para São Paulo. O secretário municipal de Direitos Humanos, Rogério Sottili, disse que a cidade se tornou local de "despejo" para os refugiados. Entre a noite de domingo, 27, e a madrugada desta segunda, mais dois ônibus com haitianos chegaram à cidade. Parte foi transferida para um novo abrigo, no Tucuruvi, zona norte da cidade.

"Recebemos essas pessoas de braços abertos e estamos atuando para dar condições básicas para garantir a dignidade. O que não podemos admitir é a atitude de despejar os refugiados na cidade, sem contato político para garantirmos seus direitos", afirmou Sottili, durante cerimônia de posse dos imigrantes que vão integrar o Conselho Participativo Municipal, na sede da Prefeitura, no centro.

De acordo com a Prefeitura, desde o início de abril, pelo menos 800 haitianos chegaram do Acre. Do total, 400 conseguiram se estabelecer em casas de amigos, parentes, ou foram para outras cidades no Sul do País. O restante ficou abrigado em São Paulo: 120 em albergues da Prefeitura e outros 280 na Casa do Migrante da Igreja Católica, no Glicério, no centro.

Sottili disse ainda que os haitianos que já estão na cidade recebem visitas diárias das equipes da Secretaria Municipal da Saúde. O Bom Prato, do governo do Estado, começa hoje a servir refeições gratuitas. Os refugiados também vão receber material de higiene.

As ações municipais e estaduais ocorrem depois de uma semana de troca de farpas entre lideranças políticas. A gestão Geraldo Alckmin (PSDB) acusou o Acre de ser "irresponsável" por não avisar sobre o envio dos refugiados. O governador do Acre, Tião Viana (PT), por sua vez, vem dizendo que a "elite paulista" não quer os haitianos por "preconceito".

O prefeito Fernando Haddad (PT) criticou a discussão intergovernamental. "Nós não podemos rebaixar o debate político, como aconteceu nos últimos dias. Esse rebaixamento e agressões mútuas não vão contribuir para a solução do problema. Entendo que não tem sido elegante o debate", afirmou.

Ele disse que compreende o problema enfrentado pelo Acre, mas defendeu uma "migração coordenada" dos haitianos. "Obviamente, essas pessoas não vão se concentrar em apenas um Estado da federação, nem seria razoável."

Brasília. Tanto a Prefeitura quanto o governo do Estado aguardam, ainda nesta semana, uma resposta de Brasília para discutir o tema. O Ministério da Justiça informou que também não havia sido avisado pelo Acre de que aquele Estado custearia passagens para que refugiados se mudassem.

O primeiro integrante de alto escalão do governo Dilma Rousseff a pisar na Pastoral do Migrante, local mantido pela Igreja Católica no Glicério, centro da capital, que está acolhendo os imigrantes, foi o ministro do Trabalho e Emprego, Manoel Dias, nesta segunda.

Ele disse que há uma determinação da presidente para montagem de uma estrutura adequada para os refugiados.

"Vamos montar, a partir de amanhã (terça-feira), um posto móvel do Centro de Apoio ao Trabalhador. Todos vão tirar a Carteira de Trabalho no mesmo dia", afirmou o ministro. Entre sexta-feira e segunda, 90 carteiras já haviam sido emitidas em esquema de mutirão. O problema, agora, é agilizar a entrega do documento para haitianos que já deram entrada no pedido para carteira.

Só nesta segunda, sete empresas estiveram na pastoral para oferecer emprego para os haitianos. Uma das empresas tinha 80 vagas. "Eu preciso de três pessoas. Sei que eles trabalham bem. Já empreguei bolivianos por intermédio da pastoral", disse o empresário Manoel Albuquerque, de 64 anos, dono de uma tecelagem em Interlagos, na zona sul de São Paulo.

Abrigo. Com a chegada de mais dois ônibus com cerca de 60 haitianos, a Prefeitura fez um acordo com a Igreja para que parte dos refugiados dormisse em um abrigo no Tucuruvi. O local tem 50 vagas. A administração se comprometeu a arrumar mais vagas para os imigrantes.

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