Haitianos constroem o caminho da Copa

Universitários, professores e poliglotas atuam nas obras do complexo viário do Itaquerão

CAIO DO VALLE, O Estado de S.Paulo

26 Maio 2013 | 02h01

Eles vieram da destruição para construir São Paulo e, de certa forma, reconstruir as próprias vidas. São professores, universitários e até atletas que falam duas, três, quatro línguas e trabalham como operários, concretando lajes e chumbando armações de ferro por salários de R$ 1,2 mil, em média. Estão a milhares de quilômetros de seu país, o Haiti, na América Central, e a poucos passos da arena que vai simbolizar a alma esportiva da capital na Copa do Mundo de 2014, o estádio do Corinthians, o Itaquerão, na zona leste.

Desde o fim do ano passado, o consórcio que toca as obras do novo complexo viário no entorno da futura arena têm empregado mão de obra haitiana. Ávidos para reerguer lares e famílias, destroçados pelo terremoto que atingiu o país caribenho em janeiro de 2010, matando mais de 200 mil pessoas, esses trabalhadores - e também trabalhadoras - buscam no Brasil as oportunidades que ainda não encontraram em sua terra natal.

Sergo Pierre, de 35 anos, deixou para trás a mãe, três irmãos e a faculdade de Direito - já havia cursado três anos e sete meses da graduação - para tentar a vida em São Paulo, sem ideia do que o esperava. "Não conhecia ninguém aqui, mas sempre ouvi falar da cidade, uma das maiores do mundo."

Há um ano, veio atrás do que a metrópole poderia oferecer. Primeiro, ganhou a vida numa cooperativa. Depois, como encanador. Faz cinco meses que trabalha como pedreiro, com carteira assinada e os devidos direitos trabalhistas, na construção de viadutos, túnel e alças de acesso que começam a mudar as feições de Itaquera.

No total, são 1,1 mil empregados - 50 vindos do Haiti, entre eles duas mulheres - empenhados no projeto de R$ 257 milhões, previsto para ser entregue em março de 2014, três meses antes do Mundial.

O grupo de estrangeiros, porém, cresce pouco a pouco. Por isso, cada vez mais uma das línguas que se ouvem perto do Itaquerão é o crioulo. E o francês, obviamente. É que esses são os dois idiomas oficiais daquele país, onde também se aprende inglês e espanhol na escola. Quem conta é Gamisson Francisque, de 25 anos, que já arranha o português. "Eu estudava Engenharia Mecânica, estava no terceiro ano quando vim. Ainda quero retomar os meus estudos", diz.

Assim como ele, seus colegas de trator, alicate e betoneira também sonham em voltar para as atividades originais. O caso mais emblemático é o de Samuel Alcine, de 23 anos. Hoje, o jovem, ex-jogador da seleção de futebol do Haiti, opera uma britadeira. "É complicado acompanhar a construção do estádio do Corinthians tão de perto e não sonhar jogar ali um dia", afirma Alcine.

A distância. A saudade, uma palavra tão portuguesa, rapidamente se incorporou ao vocabulário dos estrangeiros. Luckner Honorat, de 34 anos, que era professor em seu país, sente falta da família. Sua mãe morreu em dezembro. Logo depois, ele optou pelo Brasil. Pierre, por sua vez, tem de dividir a saudade entre o Haiti e a França, onde trabalha sua mulher, a quem não vê há cerca de três anos.

A administradora da obra, Cassia Waleska Pereira, de 49 anos, tenta, de alguma forma, amenizar a nostalgia dos trabalhadores. Ela é uma espécie de mãe para os haitianos que chegam ao Consórcio Viário Zona Leste. Desde a primeira "turma", formada há cinco meses, é responsável por assegurar que os novos profissionais, todos com carteira assinada, se entrosem à equipe. "O que a gente sente é que eles precisam de trabalho nem que for só para comer."

Segundo ela, existe uma dificuldade para a contratação de mão de obra nacional. Por isso, a absorção de haitianos.

Com o tempo, o envolvimento foi se tornando maior e ela já vai a festas dos funcionários - a maioria deles mora em apartamentos compartilhados na região central. O carinho se tornou recíproco. O dia de seu aniversário, 20 de março, coincidiu com o do nascimento da filha de um dos haitianos, o carpinteiro Kedner Jean Baptiste, de 25 anos, que decidiu batizar a rebenta com o nome de Cássia.

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