Haddad usa negociação da dívida para virar liderança

Dilma e aliados do governo do PT consideram prefeito peça-chave para projeto de reeleição

DIEGO ZANCHETTA, MARCELO DE MORAES, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2013 | 02h05

Recém-empossado na vice-presidência da Frente Nacional de Prefeitos (FNP), Fernando Haddad (PT) quer agora liderar o processo de renegociação das dívidas de mais de 4 mil municípios com a União. A articulação é o caminho mais curto para o petista se projetar como liderança nacional, avaliam aliados de partido e cientistas políticos.

O governo federal deu sinal verde para a renegociação da dívida, uma boa vontade que não existiu na gestão José Serra-Gilberto Kassab - eles também foram dezenas de vezes a Brasília tentar a redução dos 13% da receita líquida pagos mensalmente à União para 9%, sem sucesso. Com a taxa atual, as prefeituras perdem, em média, 40% da capacidade de investimento. Só São Paulo desembolsa R$ 4 bilhões anuais com débito, ou mais da metade do valor que a Prefeitura tem para aplicar em novas obras.

Cientes da influência de Haddad no governo federal, prefeitos e deputados paulistas, muitos deles da base de apoio do governador Geraldo Alckmin (PSDB), têm se aproximado do prefeito. Políticos de partidos como PTB e PV não cansam de elogiar o estilo diplomático de Haddad, que, segundo eles, foge à regra de figuras tradicionais do PT, como a ex-prefeita Marta Suplicy, conhecida pelo temperamento difícil.

Dentro da estratégia de se fortalecer politicamente, Haddad também passou a defender nos últimos dias que grandes municípios devem receber uma parcela do recurso arrecadado pela Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), para auxiliar os investimentos no transporte público das cidades.

"Nós, prefeitos das grandes capitais, realizamos o financiamento do transporte público. Hoje, 29% dos recursos da Cide vão para o governo do Estado, mas o trânsito é um problema muito maior do prefeito do que do governador", disse Haddad, durante a abertura do Congresso Estadual dos Municípios, em Santos, na quarta-feira.

Desempenho. Um bom desempenho de Haddad à frente da Prefeitura e nas articulações políticas em São Paulo é considerado estratégico pela presidente Dilma Rousseff e seus principais aliados dentro do projeto político pela reeleição para o Palácio do Planalto, em 2014.

Na visão da presidente e dos principais estrategistas do governo, se Haddad obtiver aprovação popular significativa até o próximo ano, ele ajudará a pavimentar dois caminhos importantes para Dilma em São Paulo. O primeiro será a garantia de um palanque forte na capital. O segundo é o de aumentar as chances de o PT, pela primeira vez, chegar ao governo do Estado.

Nem mesmo no período em que Luiz Inácio Lula da Silva foi presidente, o PT conseguiu ameaçar a hegemonia do PSDB no governo. Os tucanos tentam agora reeleger Geraldo Alckmin. Se conseguirem, será o sexto mandato seguido e um domínio político garantido por pelo menos 24 anos.

Por causa disso, Dilma, Lula e o PT já decidiram que apoiar a administração de Haddad é prioridade. A marca de cem dias no comando da capital paulista foi alcançada sem grandes sustos, na visão dos líderes petistas, mas será importante prevenir e monitorar possíveis problemas que podem ocorrer no futuro.

Como 2014 é considerado um ano chave por ser eleitoral, Haddad tem recebido conselhos de Brasília para que já se prepare para impedir ou pelo menos amenizar crises em potencial, como é o caso, por exemplo, das chuvas fortes que costumam acontecer no início do ano e provocam o caos para os paulistanos. Para evitar o problema, o governo quer auxiliares da Prefeitura se preparando desde já contra o problema.

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