Atendimento no "atacado". É o que promete o prefeito Fernando Haddad (PT) quando o assunto é a Câmara. Nos próximos quatro anos, o petista quer evitar conversas, cobranças e até apoios individuais. A meta é negociar a aprovação de projetos de lei diretamente com os líderes das bancadas partidárias. Hoje, além do prefeito, tomam posse os 55 parlamentares eleitos em outubro - que apostam que nada muda no trato com o Executivo.

01 Janeiro 2013 | 02h04

A mudança, segundo Haddad, é inédita e visa a acabar com o "toma lá, dá cá". Na última década, muitas vezes o interesse de um único vereador barrava a votação de projetos. O prefeito não quer ficar refém de parlamentares que atuam isoladamente em defesa de igrejas ou de empresas do mercado imobiliário, como ocorreu nas gestões Marta Suplicy (PT), José Serra (PSDB) e Gilberto Kassab (PSD).

Em fevereiro de 2010, só para citar um caso, o então vereador e hoje deputado federal pastor José Olimpio (PP) conseguiu apoio de colegas evangélicos para barrar um projeto da Prefeitura que dava isenção de Imposto sobre Serviços (ISS) para empresas ligadas à área da cultura. Seu objetivo era pressionar Kassab a conceder alvará para um templo da Igreja Mundial no Brás, considerado ilegal pelo Ministério Público Estadual (MPE).

Depois de conseguir derrubar quatro sessões seguidas na Câmara, com o apoio do então bloco político chamado "centrão", Olimpio conseguiu o que queria: do próprio punho, Kassab fez uma autorização para a reabertura do templo e a isenção de ISS para a cultura acabou votada na semana seguinte.

Para assegurar maioria e evitar situações como essa, Haddad conta com a experiência do deputado estadual João Antonio (PT), seu atual secretário de Relações Governamentais. Ex-vereador, ele terá a missão de agregar parlamentares para a base do prefeito. O objetivo é assegurar a aprovação de propostas que exigem três quintos dos votos, como o Plano Diretor.

'Duvido'. "No começo se finge que existe diretriz. Depois volta a ser tudo a mesma coisa, é jogo de cena. Quero ver quando tiver uma Igreja Universal pressionando em ano de eleição para ver se não vai ter negociação", duvida o senador Antonio Carlos Rodrigues (PR), ex-presidente por quatro mandatos consecutivos, fundador do "centrão" e defensor da negociação do varejo combatida por Haddad.

Suplente de Marta, Rodrigues avalia que cada vereador precisa receber atenção em suas demandas individuais. "Esses subprefeitos engenheiros que o Haddad está escolhendo foram indicados após conversas com vereadores. Como assim não vai ouvir todo mundo? Nada vai mudar, pode apostar", acrescenta.

Apesar das dúvidas de que vá conseguir mudar algo na Câmara, o novo prefeito começa a gestão com saldo favorável. Além dos 11 vereadores do partido, já tem o apoio declarado dos eleitos por PMDB, PTB, PC do B, PP e PSB. Indiretamente, a lista aumenta com os parlamentares do PV e do PR. Mesmo derrotado nas urnas, o partido de Kassab não deve impor dificuldades à administração. Mas com oito representantes pode inverter a balança pró ou contra Haddad.

A partir de hoje, o petista José Américo deve comandar os trabalhos no Palácio Anchieta - e a ordem das votações, o que deve facilitar ainda mais a vida de Haddad com o Legislativo. Na chefia da oposição, dois tucanos devem dividir a função: o atual líder da bancada, Floriano Pesaro, e Andrea Matarazzo, que recebeu 117,6 mil votos. Ambos, no entanto, já deixaram claro que as medidas que ajudarem a população de São Paulo terão o apoio do partido.

Uma delas já foi até antecipada pela bancada. Três dias após a eleição de Haddad, a bancada do partido apresentou projeto de lei propondo o fim da taxa de inspeção veicular - uma das principais promessas de campanha do prefeito eleito.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.