DENISE ANDRADE/ESTADÃO
DENISE ANDRADE/ESTADÃO

Delator da CPI do Teatro Municipal é 'sem caráter', diz Haddad

José Luiz Herência acusou o secretário de Comunicação de ordenar contratação e pagamentos a serviços não prestados

Juliana Diógenes, O Estado de S.Paulo

30 Junho 2016 | 15h44

O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), fez duras críticas nesta quinta-feira, 30, ao ex-diretor da Fundação Teatro Municipal José Luiz Herência, a quem chamou de "sem caráter". Nesta quarta, em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara dos Vereadores, que apura desvios na gestão do teatro, Herência acusou o secretário de Comunicação Nunzio Briguglio Filho de ordenar contratação e pagamentos a serviços não prestados que somariam R$ 1,5 milhão. Para Haddad, o ex-diretor age "no desespero".

O prefeito pediu "cuidado" e "ponderação" em relação à delação. "Parece claro que o Herência, que é a pessoa que foi demitida por corrupção, teve os bens bloqueados e que serão vendidos para reverter o dinheiro desviado para o Teatro Municipal, está tentando eventualmente fazer um jogo de cena", afirmou Haddad.

"Herência está em uma situação muito delicada. É uma pessoa que tinha reputação muito grande na área da cultura e está em uma situação muito difícil agora porque é incontestável o que ele fez. É réu confesso. Estamos falando de uma pessoa sem caráter, que no desespero pode estar se valendo de subterfúgios. Não estou dizendo que está, mas pode estar", disse.

Herência também acusou o maestro John Neschling de intermediar contratos de sua empresa com a instituição. Briguglio negou as acusações e se colocou à disposição da CPI, que nesta quarta confirmou sua convocação para depoimento. O maestro também deve comparecer à comissão.

A Prefeitura tornou público nesta quarta um relatório da Controladoria-Geral do Município com resultados da primeira auditoria feita no Municipal, que encontrou irregularidades em contratos na gestão Herência, entre 2013 e 2015, da ordem de R$ 15 milhões. O órgão apontou uma série de irregularidades na gestão do Municipal por Herência. As falhas eram executadas por meio da Organização Social Instituto Brasileiro de Gestão da Cultura (IBGC), que tinha um contrato de gestão com o teatro, e era presidido por William Naked, que também foi ouvido pelos vereadores na CPI.

Haddad disse que a CGM já investigou as acusações levantadas por Herência contra Briguglio, mas "não identificou veracidade até o presente momento". O relatório da CGM, conforme Haddad, já foi remetido ao Ministério Público Estadual (MPE), que poderá aprofundar as apurações.

Segundo o prefeito, a CGM atua com liberdade para investigar “quem quer que seja”, inclusive a ele próprio. “O que ele (Gustavo Gallardo, controlador-geral do município) relatou é que os fatos narrados no depoimento não foram comprovados. O que foi comprovado foi o desvio de recursos do Herência com a conivência do William, que tiveram seus bens bloqueados”, destacou Haddad. 

O ex-diretor do Municipal afirmou que Briguglio teria “ordenado” que ele contratasse um produtor de vídeos para a produção de cinco peças publicitárias do teatro, ao custo de R$ 500 mil, mas que o material jamais teria sido entregue. A contratação teria ocorrido em 2014. Conforme o Estado revelou nesta quinta, a Prefeitura sustentou que os vídeos foram feitos.

Nesta quarta, Haddad reforçou a informação de que os vídeos foram produzidos: "A afirmação (de Herência) de que os vídeos contratados não foram entregues é falsa. Constatamos que os vídeos foram entregues. Então, precisa de um certo cuidado. Às vezes, a pessoa está querendo tirar o corpo fora e acusar pessoas que não têm a ver com o ocorrido".

Resposta. O advogado de Herência, Daniel Morimoto, informou, em nota, que o seu cliente "tem cumprido o seu dever no sentido de reconhecer seus erros e repará-los de acordo com a lei, bem como o de fornecer todas as informações que são de seu conhecimento perante as autoridades competentes".

Disse ainda que, "diante das circunstâncias, não é de se surpreender que o prefeito Haddad considere isso como 'falta de caráter', o que discordo de forma absoluta". 

"Em nome do interesse e bem públicos, espero que todos os envolvidos adotem o mesmo procedimento de meu cliente. Por fim gostaria de esclarecer que Herência não foi demitido e sim pediu exoneração por duas vezes, sendo a segunda em caráter irretratável. Me surpreende que a CGM apenas apontou os holofotes para este personagem", finalizou o advogado. 

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