'Há uma omissão em estupros na USP', diz socióloga

'Há uma omissão em estupros na USP', diz socióloga

Wânia Pasinato defende uma postura mais incisiva da universidade e diz que denúncias não devem ser vistas como exceção

Entrevista com

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2014 | 02h03

Socióloga e consultora da ONU Mulheres, órgão das Nações Unidas para questões de gênero, Wânia Pasinato defende uma postura mais incisiva da USP e de outras instituições de ensino frente a casos de violência sexual no ambiente acadêmico, como os denunciados nesta semana por alunas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). Para a especialista, ao não se posicionar claramente diante dos casos, a universidade é omissa e acaba mascarando o problema.

O abuso sexual no ambiente universitário é mais comum do que se imagina?

Não temos acesso a dados, então não há como afirmar isso. Mas esses casos de violência sexual são frequentes. O problema é que é difícil para as vítimas tornar pública a violência sofrida e conseguir que o agressor seja responsabilizado. Então, esses eventos aparecem como isolados, com a impressão de que foi algo que aconteceu individualmente, um excesso momentâneo, mas não deve ser visto assim.

Por que a violência ainda é aceita nesses ambientes e endossada por tantos estudantes?

Essa hierarquia que se cria entre o veterano e o calouro e a hierarquia de gênero, do homem agredindo mulheres, são favorecidas pela estrutura da nossa sociedade, e a universidade está inserida nessa sociedade. Isso acaba se reproduzindo nesse espaço institucional sem que a própria universidade se posicione.

A universidade deveria se posicionar de forma mais contundente nesses casos?

Confesso que nunca entendi muito bem a postura da USP em relação a diversas denúncias de violência sexual no câmpus. Várias pessoas já foram atacadas e não conseguiram receber um atendimento digno, nunca encontraram um apoio, o que mostra que essa assistência não faz parte da política da universidade. Não investigar a ocorrência de um crime dentro do seu espaço é uma forma de minimizar a ocorrência desse problema, é uma forma de mascará-lo para que isso não venha sujar a imagem da instituição. E isso não é só na USP e não é só no Brasil. A instituição tenta preservar uma imagem e, por isso, assume essa postura, mas se esquece que são violações aos direitos das mulheres e precisam ser tratadas como crimes.

É como se, agindo assim, a universidade atuasse como cúmplice do crime?

Não seria cúmplice, mas ela contribui para que esses casos continuem ocorrendo. Há uma omissão.

A vítima de abuso dentro de um ambiente como o universitário tem mais dificuldade de denunciar a violência?

Sem dúvida nenhuma. A vítima de violência sexual, de forma geral, ainda é colocada sob suspeita, como se fosse a responsável por ter se deixado violentar pelo tipo de roupa que estava usando, por ter sido demasiadamente simpática, por ter bebido, isso pesa sobre a mulher como uma culpa imensa, mais do que a vergonha. Em locais como festas universitárias, existe esse fator que está aparecendo nas denúncias agora, o fato de estarem alcoolizadas. Em uma situação de maior fragilidade da vítima, o abuso é negado pelos agressores. E ainda tem a hierarquia entre os estudantes e entre os gêneros, o que faz com que a mulher se sinta ameaçada, que tenha medo de sofrer vingança.

De que forma a universidade pode melhorar seu papel?

Estou bastante confiante que essas denúncias recentes possam criar um momento diferente. Elas se tornaram públicas, chegaram à grande imprensa, geraram uma audiência pública, os casos foram levados a um outro patamar. A universidade não vai poder se manter calada. Hoje, a Faculdade de Medicina está completamente exposta nessa situação e isso repercute. É preciso que a diretoria da faculdade e que a reitoria se posicionem, criem um plano de ação para coibir esses atos e para dar assistência às vítimas quando eles ocorrerem.

Que medidas concretas poderiam ser tomadas?

A universidade pode adotar medidas administrativas disciplinares, como expulsar alunos envolvidos em qualquer tipo de violência. Tem de existir alguma forma de controle desses trotes também. No caso das festas e de outros eventos, tem de se estabelecer algum tipo de regra, não há porquê o consumo de bebida e de droga ser livre no ambiente universitário.

Tudo o que sabemos sobre:
Estupros na USPUSPSão Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.