Há 50 anos, ''Estado'' publicava 1ª grande pesquisa sobre favela

Sociólogo José Arthur Rios, hoje com 88 anos, analisou peculiaridades dos 94 núcleos que o[br]Rio tinha em 1960

Felipe Werneck, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2010 | 00h00

A cidade do Rio tinha 94 favelas há 50 anos, quando o Estado publicou em dois suplementos o resultado do estudo "Aspectos Humanos da Favela Carioca", encomendado pelo jornal e coordenado pelo sociólogo José Arthur Rios, hoje com 88 anos.

Foi a primeira grande pesquisa realizada sobre o tema na então capital do País, diz o antropólogo Marco Antonio Mello, de 62, coordenador do Laboratório de Etnografia Metropolitana (LeMetro), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). "Seria possível dizer que os sociólogos e antropólogos que estudam cidades e sobretudo o Rio se dividem até hoje entre aqueles que leram "Aspectos Humanos da Favela Carioca", os que ouviram falar e aqueles que não leram. Não havia nada semelhante feito até então sobre essas áreas. Foi muito importante para várias gerações de pesquisadores brasileiros."

Agora, no cinquentenário da publicação, será realizado o colóquio "Aspectos Humanos da Favela Carioca: ontem e hoje". Durante três dias, a partir de quarta-feira, o tema será debatido no salão nobre do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ, no Largo de São Francisco, no centro. Está prevista a participação de cerca de 50 palestrantes, entre eles a socióloga Licia do Prado Valladares, autora de análise do programa de remoção de favelas do Rio editada em 1978, "Passa-se uma Casa", que virou um clássico. As antropólogas Janice Perlman, dos Estados Unidos, e Colette Pétonnet, da França, vêm para o evento.

A pesquisa publicada pelo Estado foi realizada pela Sociedade de Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos Sociais (Sagmacs), sob orientação do padre francês Louis Joseph Lebret, que fundara na década de 1940 o movimento Economia e Humanismo. O trabalho durou dois anos. Nos dias 13 e 15 de abril de 1960, uma semana antes da inauguração de Brasília, os tabloides chegaram às bancas, com 88 páginas.

Coordenador do colóquio, Mello diz que "paradoxalmente questões colocadas pelo estudo permaneceram ignoradas pela grande maioria dos planejadores urbanos". "Por exemplo: o mito de que a favela é uma comunidade. Essa ideia de comunidade foi uma coisa trágica", diz ele. "O estudo mostra a profunda diferenciação interna desses grupos. Que há interesses, estilos, expectativas, trajetórias, origens e formas de sanção internas distintas. Mostra que não existe a favela, mas favelas."

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