Guns n' Roses escorre com a enxurrada

Com pinta de cover de si mesmo, vocalista Axl Rose cria tensão e humor no último momento do Rock in Rio

JOTABÊ MEDEIROS , ENVIADO ESPECIAL / RIO, O Estado de S.Paulo

04 Outubro 2011 | 03h05

Quis o destino que as cenas mais clássicas de um festival de rock viessem no final. Chuvarada, lama, tentativa de invasão do recinto e um astro que poderia até entrar no palco, mas também poderia fugir para beber no morro. O Rock in Rio terminou nesse clima, oposto ao bom-mocismo que havia reinado até então.

A última atração do festival, o Guns N'Roses, de Axl Rose, atrasou quase duas horas para entrar. Sob chuva, o público vaiava às vezes, ficava eufórico em outros momentos, mas o clima começava a ficar tenso. "Tão falando aí que ele chegou bêbado", dizia um. "Ouvi um produtor dizer que ele nem veio", dizia outro. "Ele se mandou com a Ellen Jabour", mandou mais um, ampliando o rumor de que a brasileira estaria namorando o astro.

Mas, de guarda-chuva em punho, Axl Rose finalmente chegou, dando um bom-dia irônico aos que aguentaram. E cantou durante 2h15, começando o show com uma capa de chuva amarela, escrevendo mais um torto capítulo da história do rock and roll. Lendas do gênero, as esquisitices do cantor impressionam - o visual de Inspetor Bugiganga, com os chapéus e a bandana, os óculos escuros e a alergia a fotógrafos, lembra terrivelmente (como se fosse um espelho invertido) Michael Jackson. Um Jacko redneck, vermelho e antianoréxico, igualmente alienado do mundo.

Os hits se sucediam. November Rain (quando brincou com a letra, falando da "fria chuva brasileira"), Rocket Queen, Welcome to the Jungle, Chinese Democracy, Sweet Child o'Mine, You Could Be Mine, Patience. Os efeitos tentavam compensar a falta de cintura da banda, as explosões em Live and Let Die, os riffs alternados e até um tombo involuntário de um dos guitarristas. Com os hits, vinham os truques dos guitarristas para esperar o chefe ir até o fundo do palco e trocar de roupa mais uma vez. Foram do tema de A Pantera Cor de Rosa a Sunday Bloody Sunday, do U2, e Baba O'Riley, do The Who.

Mas sempre haverá reclamação. "Faltou Don't Cry", reclamava um garoto sentado sobre um container de lixo na saída, enquanto os fogos explodiam na Cidade do Rock. Outros lembravam de Civil War e Used to Love Her. Tocar para 130 mil pessoas é como escrever crítica de rock de um show visto por 130 mil pessoas - sempre haverá umas 30 mil que vão divergir violentamente de sua escolha.

Faltou mais que Don't Cry. Faltou um pouco de pegada no show, embora Axl tenha cumprido um set eclético e exaustivo. Há muita pose, muita fantasia de roqueiro de HQ, mas a entrega do pacote é burocrática. A voz de Axl, uma das mais peculiares surgidas na história do rock, ainda está lá, meio baleada, é verdade, mas está lá - e é sempre bom testemunhar que um dia esteve a serviço dos excessos. Mas hoje não brilha mais, está fosca e recorre a truques tecnológicos para se manter viva - respira por aparelhos.

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