Guia Levi

O Guia Levi, nos seus 100 anos, nunca perdeu o trem da informação ferroviária. Todos os trens do País circulavam em suas páginas. Delas constavam, até, as conexões com a rede ferroviária argentina. Três vezes por semana havia trem de São Paulo para Buenos Aires, saindo da Júlio Prestes. Italianos e espanhóis de cá e de lá visitando os parentes.

JOSÉ DE SOUZA MARTINS, O Estado de S.Paulo

12 Março 2012 | 03h04

Letras miúdas, nos espaços bem aproveitados, não havia detalhe que ficasse de fora em relação às estações percorridas. O Guia indicava se havia no trem carro Pullman, dormitório ou bufê, ou, em determinadas estações, bar ou restaurante, tempo de parada em cada uma, conexões, baldeações.

Nas viagens longas, um vendedor, sacola pendente do pescoço cheia de garrafas de guaraná e de tubaína, segurando um tabuleiro, percorria os carros, anunciando comes e bebes. Havia quem levasse o frango recheado com farofa de farinha de milho, cebola, ovo e miúdos, comida de sustança, como diziam. Era o cúmulo da caipirice, mas bem melhor do que o pãozinho com uma única e miserável fatia de mortadela, oferecido aos passageiros da segunda classe por mais do que valia. Viagem de trem abria o apetite, especialmente da criançada.

Fui leitor do Guia Levi, viajando imaginariamente pelo Brasil. O trem chegava até o sertão do Nordeste e ao Sul. Troquei, nos anos 70, uma viagem de avião por uma de trem para participar de um seminário em Joaçaba, pelo privilégio de percorrer o belíssimo trecho que ainda restava, em Santa Catarina, da antiga ferrovia que levara de São Paulo ao Rio Grande e do Rio Grande à Argentina. Na Europa, a teriam transformado em lucrativa ferrovia turística. Aqui, foi transformada em sucata.

Um dia fui parar na Bolívia, baseado no Guia Levi. Embarquei na Estação da Luz, pela Companhia Paulista de Estradas de Ferro, às 12h05 do dia 4 de janeiro de 1958. Viajei no conforto de um carro Pullman, poltronas individuais, serviço de bordo, rumo a Bauru. Depois de Jundiaí, vinha a onda verde das fazendas de café, os cafezais sumindo aos poucos no horizonte e na janela do trem. Desembarquei em Bauru no começo da noite e esperei quatro horas pelo trem da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Nele, na noite seguinte, atravessei o Pantanal do Mato Grosso, o reflexo da lua rebrilhando no espelho d'água, rumo à bucólica Corumbá, à beira do Rio Paraguai.

Dias depois, eu passava a fronteira para Puerto Suárez, numa viagem de 600 km até Santa Cruz de la Sierra, sete dias e noites no trem que trafegava em velocidade de burro de roça. De Santa Cruz a Cochabamba, não havia trem, só ônibus, para subir o frio dos Andes. Ali retornei a um trem para a viagem a La Paz e às ruínas pré-incaicas de Tiahuanacu, quase no Lago Titicaca e no Peru. De trem, eu chegara à Puerta del Sol, à própria alma da América pré-colombiana e mítica.

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