'Guerra e Paz' volta ao País pela 1ª vez

Painéis gigantescos de Portinari que estavam na ONU terão restauro no Rio e exibição pública pelo mundo; em SP, devem ir para o Masp

Bruno Boghossian / RIO, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2010 | 00h00

Um projeto ambicioso vai trazer ao Brasil, pela primeira vez, uma das obras mais imponentes do pintor Candido Portinari. Os dois gigantescos painéis que compõem a obra "Guerra e Paz", instalada na sede da ONU, em Nova York, serão desmontados a partir de agosto e transportados para uma restauração completa e uma série de exposições públicas em várias cidades.

Os murais de 140 m² cada, que retratam o sofrimento da guerra e o conforto da paz, foram encomendados a Portinari para exibição no acesso ao plenário da Assembleia-Geral das Nações Unidos. Antes de serem levados para os EUA, em 1956, foram expostos no Brasil por uma semana.

A primeira exibição pública da obra no retorno ao Brasil deve ocorrer em novembro, no Theatro Municipal do Rio, mas os responsáveis pelo projeto já negociam exposições em Brasília, São Paulo, Belo Horizonte, Paris e Alexandria (Egito) até 2013, quando os painéis serão devolvidos às Nações Unidas. "Será uma grande oportunidade de ver de perto uma das últimas grandes obras de Portinari", avalia o filho do artista, João Candido Portinari. "Os painéis são um grande grito brasileiro pela paz, mas ficaram por mais de 50 anos restritos a um prédio a que o grande público não tem acesso."

A viagem e a recuperação dos dois murais fazem parte de uma operação complexa viabilizada por um financiamento do governo. Os recursos serão usados para pagar a desmontagem dos painéis (28 grandes placas de madeira), o transporte, o armazenamento, a restauração e o seguro das peças por três anos.

A vontade de tornar pública a estada da obra no País é tanta que até o trabalho de recuperação dos painéis será aberto a visitações, no Palácio Gustavo Capanema, no centro do Rio. Durante quatro meses, uma equipe vai corrigir os efeitos da umidade na superfície da pintura e as falhas nas junções entre as placas.

O artista Enrico Bianco, que trabalhou como assistente de Portinari na criação de Guerra e Paz, será convidado para participar. "Ele tem 91 anos, mas está absolutamente lúcido e foi testemunha do processo de criação da obra", relata João Candido.

As exposições dos murais em outras cidades do País e no exterior ainda dependem de financiamento. Estão mais avançadas as negociações para exibir a obra em Brasília e no Grand Palais de Paris. São Paulo deve receber os painéis após a temporada na França, provavelmente no Masp. "Nossa ideia é que a obra fique em São Paulo por um período longo e a cidade seja uma espécie de "quartel-general" do projeto, para que os brasileiros possam se programar para ver a obra", diz João Candido.

Museu Portinari. Apesar de ainda estar batalhando para captar os recursos necessários para as exposições, João Candido já vislumbra uma coroação grandiosa para a turnê de Guerra e Paz. O filho de Portinari espera inaugurar, em 2013, no Rio, um museu dedicado à obra do artista, para marcar a despedida dos painéis do Brasil. "Temos um projeto belíssimo do Oscar Niemeyer na gaveta há 20 anos. Vamos procurar as autoridades do município e do Estado para tentar viabilizar esse projeto como parte da revitalização da zona portuária."

Megaoperação

R$ 6,5 mi é a quantia financiada pelo BNDES para a operação

4 anos é o tempo que a obra ficará sob a guarda do Projeto Portinari

PARA LEMBRAR

Artista morreu intoxicado pelas tintas

Em 1952 o governo brasileiro encomendou o trabalho de Portinari para contribuir com a nova sede da ONU, Após mais de 180 estudos e nove meses de execução em um galpão da TV Tupi, a obra ficou pronta em 1956. O artista já havia sofrido intoxicação por chumbo de tintas a óleo, mas ignorou a proibição médica e voltou a usar o material. Morreu em 1962, aos 58 anos, em decorrência do envenenamento. "Foi o maior desafio de sua vida. Ele abandonou as recomendações e enfrentou essa tarefa absurda, que se provou fatal", conta o filho do artista, João Candido.

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